segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

FABAMA - PRÁTICA DE REDAÇÃO

APRESENTAÇÃO

Queridas companheiras, queridos companheiros,  esta apostila de Prática de Redação é um teste, o que faz de vocês, queiram me perdoar, minhas cobaias. Não “Cobaias de Deus”, como na composição de Cazuza, mas cobaias de Isac mesmo.  Embora ela apresente alguns gêneros textuais típicos do meio acadêmico, mais a frente ela traz uma proposta de oficinas de interpretação e produção de textos a partir de conhecimentos filosóficos básicos, visto que a qualidade do texto que produzimos, ou a qualidade da interpretação  que fazemos está relacionada a nossa visão de mundo. Assim, quanto mais ampliarmos essa visão de mundo, melhor entenderemos e melhor produziremos, e isso inclui, evidentemente, a interpretação bíblica.
Esta apostila reúne apenas alguns poucos textos e algumas poucas fundamentações teóricas, A partir deles, muitas propostas serão apresentadas e executadas em nossas aulas.
Assim sendo, bons estudos a todos! O que queremos de fato, é escrever sem dor, e interpretar sem grandes sofrimentos.


Isac Machado de Moura


  
RESENHA, RESUMO E FICHAMENTO

A resenha é um tipo de trabalho que para ser feito é necessário que se tenha domínio do assunto abordado. “Somente o conhecimento profundo permitirá a você estabelecer comparações e fornecerá a maturidade intelectual necessária para a emissão de qualquer julgamento de valor, ou seja, dizer se concorda ou discorda com as considerações apresentadas pela obra e texto a ser resenhado.”
Muito utilizado nos meios acadêmicos, esse recurso pode ser utilizado para relatar qualquer acontecimento da realidade (um filme, uma peça teatral, um evento esportivo, etc), além de livros (inteiros ou parte deles) e textos diversos.
Ao elaborar uma resenha, o resenhista tem um objetivo, ou seja sua intenção pode ser, por exemplo, a de fazer publicidade ou a de adquirir conhecimento sobre o objeto. A partir desse objetivo deve-se determinar os pontos relevantes do objeto a ser resenhado. Por exemplo, ao resenhar um livro, com o objetivo de promovê-lo, não é relevante informar seu custo de produção, mas é imprescindível destacar os dados referentes ao autor da obra.
A resenha é, portanto, “[...] um texto que apresenta informações selecionadas e resumidas sobre o conteúdo de outro texto, trazendo, além das informações, comentários e avaliações do resenhista.”  (Resenha, 2004. p. 15)

O fragmento abaixo é um exemplo de resenha.

“[...] É sensacional! Méritos para o estreante, roteirista e diretor Sylvain Chomet, que criou um universo charmoso e criativo, no qual opta por espelhar-se no cinema mudo apresentando uma mistura de raros diálogos, canções e movimentos. Além da simples história que exibe uma trama cativante e envolvente, o encanto certamente está no gráfico em 2D, devido aos divertidos traços caricaturados das feições humanas e dos ambientes com cores leves.[...]”

Esse fragmento foi extraído da resenha de um filme. Note que os termos em destaque (sensacional, charmoso, criativo, simples, etc) representam a opinião do resenhista. Ele procurou (e conseguiu): mostrar as informações de forma resumida, mostrar as informações mais relevantes e posicionar-se criticamente em relação ao objeto resenhado.


O resumo, assim como a resenha, deve conter dados selecionados e sucintos sobre o conteúdo de outro texto. A diferença reside no fato de o resumo não conter comentários ou avaliações de seu produtor. Noutras palavras, o resumo é uma redução das ideias contidas num texto, mantendo a fidelidade ao texto original. Eis algumas dicas para facilitar a produção de um resumo:
A. Leia atentamente o texto a ser resumido, certifique-se de tê-lo entendido;
B. Utilize a inserção de citações. (Segundo o autor… / Fulano de tal considera… / De acordo com que afirma…) ;
C. Redija-o em linguagem objetiva, clara e concisa;
D. Escreva-o com suas palavras, evitando copiar as frases e expressões contidas no texto original;
E. Desconsidere conteúdos facilmente inferíveis; (“Maria era uma pessoa muito boa. Gostava de ajudar as pessoas…”)
F. Ignore expressões explicativas; (“Discutiremos a construção de textos argumentativos, isto é aqueles nos quais…”)
G. Não use expressões que exemplifiquem; (As pessoas deveriam ler, também outros autores. Por exemplo…
H. Não considere as justificativas de uma afirmação; (“Não corra tanto, pois quando se corre…”)
I. Reduza o texto a uma fração do texto original, respeitando a ordem em que as ideias ou fatos são apresentados;

O fragmento abaixo é um exemplo de resumo.
“Leonardo Boff inicia o artigo ‘A cultura da paz’ apontando o fato de que vivemos em uma cultura que se caracteriza fundamentalmente pela violência. Diante disso, o autor levanta a questão da possibilidade de essa violência poder ser superada ou não. Inicialmente, ele apresenta argumentos que sustentam a tese de que seria impossível, pois as próprias características psicológicas humanas e um conjunto de forças naturais e sociais reforçariam essa cultura da violência, tornando difícil sua superação. Mas, mesmo reconhecendo o poder dessas forças, Boff considera que, nesse momento, é indispensável estabelecermos uma cultura de paz contra a violência, pois essa estaria nos levando à extinção da vida humana no planeta. Segundo o autor, seria possível construir essa cultura, pelo fato de que os seres humanos são providos de componentes genéticos que nos permitem sermos sociais, cooperativos, criadores e dotados de recursos para limitar a violência e de que a essência do ser humano seria o cuidado, definido pelo autor como sendo uma relação amorosa com a realidade, que poderia levar à superação da violência. A partir dessas constatações, o teólogo conclui, incitando-nos a despertar as potencialidades humanas para a paz, como projeto pessoal e coletivo.”

FICHAMENTO: Imaginemos que você tenha alguns livros e textos para ler e resenhar ou resumir. Caso você não tenha adquirido todos os livros e textos, poderá recorrer ao fichamento para organizar a leitura desse material. Quando precisar fazer uma monografia, resenha e outros trabalhos acadêmicos, o fichamento o ajudará a reconstituir a fonte e as idéias apresentadas pelos autores estudados. Algumas dicas para fazer um fichamento:
A. Coloque no cabeçalho: o título genérico ou específico, a letra e/ou número indicando a sequência das fichas, caso você utilize mais de uma, deverá repetir o cabeçalho;
B. Insira: Referências bibliográficas (Nome do autor, título da obra, subtítulo se houver, edição, local da publicação, editora, ano da publicação, coleção (se fizer parte));

C. No corpo da ficha: Redija o texto. Utilize uma linguagem clara, objetiva, direta, sem subjetivismo (eu penso, eu acho…), resuma o assunto tratado, abordando o que o autor diz, pensa e o que é novo sobre o assunto;
D. Anote o local onde se encontra a obra (biblioteca…)

Exemplos de fichamento:


TEXTOS CIENTÍFICOS (título genérico) – REDAÇÃO CIENTÍFICA, A prática de Fichamentos, Resumos, Resenhas (Título específico) página - nº 1 ou A

MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica: A prática de Fichamentos, Resumos, Resenhas.
São Paulo, Atlas, 2004. p.114. (escrever o texto)

Biblioteca do—— (local onde se encontra a obra)

PLATÃO, F. S & FIORIN, J.L. Lições de texto: leitura e redação, 4. ed. São Paulo : Ática,
1999. p. 89
ASSUNTO: TEXTOS TEMÁTICOS E TEXTOS FIGURATIVOS – Ficha 01

“Cada um dos tipos tem uma função distinta. Os textos figurativos produzem um efeito de realidade e, por isso, representam o mundo, criam uma imagem do mundo, com seus seres, seus acontecimentos etc.; os temáticos explicam as coisas do mundo, ordenam-nas, classificam-nas, interpretam-nas, estabelecem relações e dependências entre elas, fazem comentários sobre suas propriedades. Os primeiros criam um efeito de realidade, porque trabalham com o concreto; os segundos explicam, porque operam com aquilo que é apenas conceito. Os primeiros têm uma função representativa; os segundos, uma função interpretativa.”
Biblioteca da UMC



O TEXTO ARGUMENTATIVO

     COMUNICAR não significa apenas enviar uma mensagem e fazer com que nosso ouvinte/leitor a receba e a compreenda. Dito de uma forma melhor, podemos dizer que nós nos valemos da linguagem não apenas para transmitir ideias, informações. São muito frequentes as vezes em que tomamos a palavra para fazer com que nosso ouvinte/leitor aceite o que estamos expressando (e não apenas compreenda); que creia ou faça o que está sendo dito ou proposto.

     Comunicar não é, pois, apenas um fazer saber, mas também um fazer crer, um fazer fazer. Nesse sentido, a língua não é apenas um instrumento de comunicação; ela é também um instrumento de ação sobre os espíritos, isto é, uma estratégia que visa a convencer, a persuadir, a aceitar, a fazer crer, a mudar de opinião, a levar a uma determinada ação.

     Assim sendo, talvez não se caracterizaria em exagero afirmarmos que falar e escrever é argumentar.

     TEXTO ARGUMENTATIVO é o texto em que defendemos uma idéia, opinião ou ponto de vista, uma tese, procurando (por todos os meios) fazer com que nosso ouvinte/leitor aceite-a, creia nela.

     Num texto argumentativo, distinguem-se três componentes: a tese, os argumentos e as estratégias argumentativas.

     TESE, ou proposição, é a ideia que defendemos, necessariamente polêmica, pois a argumentação implica divergência de opinião.

     A palavra ARGUMENTO tem uma origem curiosa: vem do latim ARGUMENTUM, que tem o tema ARGU , cujo sentido primeiro é "fazer brilhar", "iluminar", a mesma raiz de "argênteo", "argúcia", "arguto".

     Os argumentos de um texto são facilmente localizados: identificada a tese, faz-se a pergunta por quê? (Ex.: o autor é contra a pena de morte (tese). Porque ... (argumentos).

     As ESTRATÉGIAS não se confundem com os ARGUMENTOS. Esses, como se disse, respondem à pergunta por quê (o autor defende uma tese tal PORQUE ... - e aí vêm os argumentos).

     ESTRATÉGIAS argumentativas são todos os recursos (verbais e não-verbais) utilizados para envolver o leitor/ouvinte, para impressioná-lo, para convencê-lo melhor, para persuadi-lo mais facilmente, para gerar credibilidade, etc.

     Os exemplos a seguir poderão dar melhor idéia acerca do que estamos falando.


     A CLAREZA do texto - para citar um primeiro exemplo - é uma estratégia argumentativa na medida em que, em sendo claro, o leitor/ouvinte poderá entender, e entendo, poderá concordar com o que está sendo exposto. Portanto, para conquistar o leitor/ouvinte, quem fala ou escreve vai procurar por todos os meios ser claro, isto é, utilizar-se da ESTRATÉGIA da clareza. A CLAREZA não é, pois, um argumento, mas é um meio (estratégia) imprescindível, para obter adesão das mentes, dos espíritos.

  O emprego da LINGUAGEM CULTA FORMAL deve ser visto como algo muito es-tra-té-gi-co em muitos tipos de texto. Com tal emprego, afirmamos nossa autoridade (= "Eu sei escrever. Eu domino a língua! Eu sou culto!") e com isso reforçamos, damos maior credibilidade ao nosso texto. Imagine, estão, um advogado escrevendo mal ... ("Ele não sabe nem escrever! Seus conhecimentos jurídicos também devem ser precários!").

     Em outros contextos, o emprego da LINGUAGEM FORMAL e até mesmo POPULAR poderá ser estratégico, pois, com isso, consegue-se mais facilmente atingir o ouvinte/leitor de classes menos favorecidas.

     O TÍTULO ou o INÍCIO do texto (escrito/falado) devem ser utilizados como estratégias ... como estratégia para captar a atenção do ouvinte/leitor imediatamente. De nada valem nossos argumentos se não são ouvidos/lidos.

     A utilização de vários argumentos, sua disposição ao longo do texto, o ataque às fontes adversárias, as antecipações ou prolepses (quando o escritor/orador prevê a argumentação do adversário e responde-a), a qualificação das fontes, a utilização da ironia, da linguagem agressiva, da repetição, das perguntas retóricas, das exclamações, etc. são alguns outros exemplos de estratégias.

Dissertação

Dissertação é um trabalho acadêmico baseado em estudo teórico de natureza reflexiva, que consiste na ordenação de ideias sobre um determinado tema. A característica básica da dissertação é o cunho reflexivo-teórico.
Dissertar é debater, discutir, questionar, expressar ponto de vista, qualquer que seja. É desenvolver um raciocínio, desenvolver argumentos que fundamentem posições. É polemizar, inclusive, com opiniões e com argumentos contrários aos nossos. É estabelecer relações de causa e consequência, é dar exemplos, é tirar conclusões, é apresentar um texto com organização lógica das ideias. Basicamente um texto em que o autor mostra as suas ideias.

                     
 Tipos de dissertação


A dissertação consiste na explanação ou discussão de conceitos ou ideias. Ela pode ser expositiva ou argumentativa.
Na dissertação expositiva, o autor apresenta uma ideia, uma doutrina e expõe o que ele ou outros pensam sobre o tema ou assunto. Geralmente faz a amplificação da ideia central, demonstrando sua natureza, antecedentes, causas próximas ou remotas, consequências ou exemplos.
Na dissertação argumentativa, o autor quer provar a veracidade ou falsidade de ideias; pretende convencer o leitor ou ouvinte, dirige-se à sua inteligência através de argumentos, de provas evidentes, de testemunhas.
Se a dissertação é objetiva, o tratamento dado ao texto é impessoal, com argumentação lógica partindo de elementos gerais e indo para os particulares. Na dissertação subjetiva, o autor dirige-se não só à inteligência, mas também, de modo pessoal, aos sentimentos de quem ele pretende convencer. Além da emoção, às vezes há ironia, sarcasmo, ridículo.

São partes importantes da dissertação a introdução, o desenvolvimento e a conclusão.

Exemplos de dissertação
 
Através de dois textos distintos, a dissertação pode ser exemplificada:
"A fim de aprender a finalidade e o sentido da vida, é preciso amar a vida por ela mesma, inteiramente; mergulhar, por assim dizer, no redemoinho da vida. Somente então apreender-se-á o sentido da vida, compreender-se-á para que se vive. A vida é algo que, ao contrário de tudo criado pelo homem, não necessita de teoria, quem aprende a prática da vida também assimila sua teoria". (Wilhelm Reich. A Revolução Sexual. Rio de Janeiro, Zahar, 1974).

O texto expõe um ponto-de-vista (finalidade da vida é viver) sobre um assunto-tema (no caso, o sentido e a finalidade da vida). Além de apresentar um ponto-de-vista do autor, o texto faz também a defesa deste ponto-de-vista: onde ele defende os motivos que fundamentam a opinião de que a prática intensa de viver é que revela o sentido da vida.

"Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. (...) Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. Não estou me referindo a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação. Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada... Lembrando-me agora com saudade da dor de escrever livros." (Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo).

 Partes que compõem a dissertação
 

Introdução - deve ser breve e anunciar ao leitor o que será desenvolvido no texto, acompanhado da opinião.

Desenvolvimento - é o corpo do texto; aqui serão utilizadas as ideias propostas na introdução, defendendo o ponto-de-vista através de argumentos.

Conclusão - serve para finalizar o que foi exposto; deve ser breve e não pode conter nenhuma ideia nova e nenhum exemplo; trata-se de um resumo da dissertação como um todo. Ela pode ser feita de duas maneiras:

Síntese - resumo do que foi dito durante o texto.
Sugestão - proposta para que o problema discutido seja solucionado.

A todo instante nos deparamos com situações que exigem a exposição de ideias, argumentos e pontos de vista; muitas vezes precisamos expor aquilo que pensamos sobre determinado assunto.  Em muitas situações somos induzidos a organizar nossos pensamentos e ideias e utilizar a linguagem para dissertar.

Falando um pouco sobre dissertação

Dissertar é o mesmo que desenvolver, explicar um assunto, através da organização de palavras, frases e textos, apresentar ideias, desenvolver raciocínio, analisar contextos, dados e fatos. Neste momento temos a oportunidade de discutir, argumentar e defender o que pensamos através da fundamentação, justificação, explicação, persuasão e de provas.


A elaboração de textos dissertativos requer domínio da modalidade escrita da língua, desde a questão ortográfica ao uso de um vocabulário preciso e de construções sintáticas organizadas, além de conhecimento do assunto que se vai abordar, e posição crítica (pessoal) diante desse assunto.

A
atividade dissertadora desenvolve o gosto de pensar e escrever o que pensa, de questionar o mundo, de procurar entender e transformar a realidade.


COERÊNCIA, COESÃO E CLAREZA

TEXTO 1

            Raimundo foi a uma festa, numa boate badalada de Búzios, com uma linda mulher, que não era sua namorada.
            Temendo ser descoberto, olhava ao seu redor o tempo todo.
            Lá pelas tantas, faltou energia e todo o  bairro, inclusive a boate, ficou às escuras. Todo mundo reclamou, menos Raimundo, que sentiu-se protegido pela escuridão. Tudo estava um breu, ninguém sabia quem era quem.
            De repente, Raiumundo ficou pálido, sua namorada acabara de entrar acompanhada de duas amigas.         

            O texto acima apresenta uma incoerência: se tudo era um breu e ninguém via ninguém, como ele pode ter visto a namorada com as duas amigas, logo que entraram?

COERÊNCIA TEXTUAL, portanto, é a relação harmoniosa entre os pensamentos expostos; refere-se, portanto, ao conteúdo do texto.


            Para que o texto seja coerente é preciso que  haja uma unidade, que todas as partes se encaixem.
            Para que o texto acima  pudesse ser considerado coerente, os personagens poderiam se encontrar na saída ou a energia poderia ter voltado. O que não pode é, no breu da boate, onde ninguém via ninguém, Raimundo ver a namorada logo que entrou.
            Imagine um grupo de pessoas montando um painel com o tema HÁBITOS URBANOS e uma dessas pessoas sugerindo a fotografia de um garoto andando à cavalo numa fazenda. Teríamos uma incoerêcia.

            No caso da dissertação, os argumentos apresentados para justificar sua tese precisam ser coerentes. Do contrário, toda a tese será comprometida.


Exemplo

As quotas universitárias para negros é uma forma de resgate histórico da valorização de um grupo que foi proibido de frequentar escolas brasileiras num dado momento da história. Assim, podemos dizer que a quota é discriminatória.

            Aqui, a conclusão está equivocada, levando-se em conta a ideia inicial. Temos, portanto, um caso de incoerência.

COESÃO

            Ligação  entre as ideias, as frases, o que é fundamental para o bom entendimento do texto.
            Essa ligação precisa apresentar um sentido lógico, coerente; para isso é preciso observar as relações semânticas existente entre as palavras.

            Para redigirmos um texto de boa qualidade, precisamos conhecer os elementos de coesão textual, pois um texto coeso, com as ideias bem arrumadas, nos permite compreendê-lo de modo satisfatório.
            Para dar coesão ao nosso texto, podemos utilizar  diversas palavras que funcionam como conectivos (elementos de ligação): conjunções, preposições, pronomes relativos e advérbios.

EXEMPLO:
            A liberação de gás carbônico na atmosfera começou  com a eclosão da Revolução Industrial, há 200 anos, quando as máquinas a vapor começaram  a queimar carvão como fonte de energia. Depois, os motores a explosão, como o dos automóveis, foram alimentados com subprodutos do petróleo. Esses combustíveis resultam de grandes porções de florestas do passado, soterrados pelo movimento incessante das placas tectônicas, que formam a superfície da Terra. Assim representam enormes estoques de gás carbônico. O corte e queima de florestas também vêm aumentando a liberação de gás carbônico  atmosférico.  (O Estado de São Paulo: 16/06/99)

CONJUNÇÕES – estabelecem relações entre as orações ou entre palavras de uma mesma categoria gramatical.

a)    CAUSA – para criar esta relação, podemos recorrer às conjunções (e locuções conjuntivas) subordinativas adverbiais causais: porque, como, visto que, uma vez que, já que; por causa de, devido a, em virtude de. Essas conjunções e expressões vão indicar uma causa e uma conseqüência ao juntar os dois pensamentos.
Ex.: “Alguns projetos essenciais não são votados porque temos políticos omissos em relação à saúde da população.”

Causa: Por que os projetos não são votados? Porque temos políticos omissos em relação à saúde da população.
Conseqüência:  Projetos importantes para a população não são votados.

b)    CONSEQUÊNCIA – Para apresentar um fato como consequência de outro, o mais prático é usarmos conjunções subordinativas adverbiais consecutivas: que(depois de tão, tanto, tal), de sorte que, de modo que, de maneira que, de forma que. Ouras expressões indicadoras de consequência: por isso, assim, como resultado, por conseqüência.

c)    COMPARAÇÕES – Em redações, é muito comum confrontarmos assuntos, dados, fatos, ideias, comparando peculiaridades entre eles. Para tal procedimento, utilizamos, normalmente, conjunções subordinativas adverbiais comparativas: assim como, de modo semelhante, igualmente, do mesmo modo, por sua vez, tal qual, seja... seja, diferentemente.

Ex.: “O Brasil, de modo semelhante aos demais países do Terceiro Mundo, mantém uma política educacional pobre em todos os níveis, se compararmos aos países europeus.”



CLAREZA

            Se não usarmos adequadamente os elementos de ligação, o texto não terá coesão. Consequentemente, também não teremos coerência e aí já era. O texto estará completamente comprometido.

            Outros fatores que podem comprometer a clareza do texto:
·         ambiguidade;
·         uso de períodos longos;
·         uso de palavras ou expressões de difícil entendimento.

EX.: O Colocador de Pronomes, conto de Monteiro Lobato. O personagem principal usa um vocabulário artificialmente sofisticado, com palavras incompreensíveis para a  maioria das pessoas.

No fragmento a seguir, o personagem central dirige-se ao congresso solicitando a criação de uma lei contra os que erram no uso do idioma:
            - Leis, Senhores, leis de Dracão, que digues sejam, e fossados, e alcáceres de granito propostos à defensão do idioma. Mister sendo, a força restaure, que mais o baraço merece quem conspurca o sacro patrimônio da sã verniculidade, que quem ao semelhante a vida tira. Vede, Senhores, os pronomes, em que lazeira jazem...
           
            Como observamos, rola aí uma linguagem exagerada, com muitas palavras raras ou em desuso, e vários termos em ordem inversa. Assim, o personagem acaba caindo no ridículo e todos riem dele.


AMBIGUIDADE

            Ocorre quando o leitor  fica em dúvida diante de mais de uma possibilidade de entendimento do que está escrito. Ocorre ambiguidade, normalmente, por má colocação das palavras e por mau uso de pronomes possessivos.

NARRAÇÃO

            “O tempo não para.” (Cazuza)

            Todos os dias, todas as horas acontecem coisas que nós visualizamos e contamos  para outra pessoa, ou seja, narramos. Então, narrar é contar uma história (real ou fictícia) da qual participamos ou que apenas observamos.
            Quem conta? O narrador.
            O quê? O fato, a ação. O enredo é o conjunto de fatos ou circunstâncias que formam o texto (o tecido).
            Quem? Os personagens.
            Como? O modo como os fatos ou a ação aconteceram (enredo / fatos).
            Quando? A época, o momento em que os fatos aconteceram – tempo.
            Onde? Em que lugar ou lugares os fatos aconteceram, o espaço.
            Por quê? O motivo, o que provocou os fatos.

            Nem sempre todos os elementos aparecem num mesmo texto. Agora, personagens, fatos e narrador sempre existirão no texto narrativo.

FOCO NARRATIVO

1ª pessoa / narrador-personagem. Quando quem conta também participa da história contada, ou seja, é um personagem.
3ª pessoa / narrador-observador. Quando quem conta a história não participa dela. Esse narrador, além de ser observador, pode também ser onisciente, ou seja, aquele que tem ciência, conhecimento de tudo, capaz de contar não só o que os personagens fazem, mas também o que pensam e sentem.

            Quando o narrador limita-se a contar os fatos sem expor seus sentimentos, ou seja, quando ele não se envolve emocionalmente nos fatos, temos uma NARRAÇÃO OBJETIVA.
            Quando ele se envolve emocionalmente, expondo seus sentimentos em relação aos fatos, temos uma NARRAÇÃO SUBJETIVA.
           

TRAGÉDIA BRASILEIRA
Manuel Bandeira

            Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
            Conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
            Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
            Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
            Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
            Viveram três anos assim.
            Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
            Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
            Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

DISCURSO E TEXTO

            Todas as classes sociais deixam as marcas de sua visão de mundo, dos seus valores e crenças, ou seja, de sua IDEOLOGIA, no uso que fazem da linguagem.
            De acordo com o dicionário HOUAISS, IDEOLOGIA é um sistema de ideias (crenças, tradições, princípios e mitos) interdependentes, sustentadas por um grupo social de qualquer natureza ou dimensão, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos  ou econômicos.
            Como seres humanos, recorremos à linguagem para expressar nossos sentimentos, opiniões, desejos. É por meio dela que interpretamos a realidade que nos cerca. Essa interpretação, porém, não é totalmente livre. Ela é construída historicamente a partir de uma série de filtros ideológicos que todos nós temos, mesmo sem nos darmos conta de sua existência.
            Esses filtros constituem uma formação ideológica, ou seja, um conjunto de valores e crenças a partir dos quais julgamos a realidade na qual estamos inseridos.
            Ao longo da história da Música Popular Brasileira, muitos compositores procuraram definir, em suas letras, por exemplo, um perfil da mulher ideal.


AI QUE SAUDADES DE AMÉLIA
(Ataulfo Alves e Mário Lago)

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo  e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai, meu Deus, que saudades de Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: “Meu filho, o que se há de fazer!”

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade.


EMÍLIA (Wilson Batista e Haroldo Lobo)

Eu quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar
Que, de manhã cedo, me acorde na hora de trabalhar
Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz
Emília, Emília, Emília, eu não posso mais.

Ninguém sabe igual a ela
Preparar o meu café
Não desfazendo das outras
Emília é mulher
Papai do céu é quem sabe
A falta que ela me faz
Emília, Emília, Emília, eu não posso mais...




DANDARA
(Ivan Lins e Francisco Bosco)

Ela tem nome de mulher guerreira
E se veste de um jeito que só ela
Ela vive entre o aqui e o alheio
As meninas não gostam muito dela

Ela tem um tribal no tornozelo
E na nuca adormece uma serpente
O que faz ela ser quase um segredo
É o ser ela assim, tão transparente

Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra, céu e mar
Dandara

Ela faz mechas claras nos cabelos
E caminha na areia pelo raso
Eu procuro saber os seus roteiros
Pra fingir que a encontro por acaso

Ela fala num celular vermelho
Com amigos e com seu namorado
Ela tem perto dela o mundo inteiro
E à volta outro mundo, admirado

Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra, céu e mar
Dandara

  


E SE TENTARMOS ENTENDER MELHOR OS TEXTOS COM AJUDA DA FILOSOFIA?

A palavra FILOSOFIA

            Philo – amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais;
            Shofia – sabedoria.

Filosofia, portanto, é uma palavra de origem grega, que significa: amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber. Filósofo é o que ama a sabedoria, que tem amizade pelo saber, que deseja o conhecimento.
           
            A Filosofia surge quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos e as coisas da Natureza, os acontecimentos e as ações humanas podem ser conhecidos pela razão humana, ou seja, quando o homem percebe que a verdade do mundo e dos humanos não era algo secreto e misterioso que precisasse ser revelado por divindades a alguns escolhidos, mas que, ao contrário, podia ser conhecida por todos, através da razão, que é a mesma em todos.
           
            Nós, seres humanos, somos seres inquietos, curiosos, desejosos de informações. Foi dessas inquietações, dessas perguntas e da busca de respostas que nasceu a Filosofia.

1.    Por que os seres nascem e morrem?
2.    Por que tudo muda?
3.    Por que adoecemos
4.    De onde vêm os seres?
5.    Para onde vão, quando desaparecem?
6.    Por que tudo parece repetir-se: depois do dia, a noite; depois da noite, o dia?

Ouvindo a voz dos poetas

Os poetas costumam exprimir o que chamamos de “sentimento do mundo”, o sentimento da velhice e da juventude, da grandeza e da pequeneza dos mortais, da efemeridade das coisas.

            “E não te esqueças, meu coração,
            que as coisas humanas apenas
            mudanças incertas são.”   (Arquíloco, poeta grego)

            “Choremos a juventude e a velhice também,
            pois a primeira foge
            e a segunda sempre vem.”           (Teógnis, poeta grego)

            “A glória dos mortais num só dia cresce,
            mas basta um só dia, contrário e funesto,
            para que o destino, impiedoso, num gesto
            a lance por terra e ela, súbito, fenece.”  
(Píndaro, poeta grego)


Mas não só a vida e os feitos dos humanos são breves e frágeis. Os poetas também exprimem o sentimento de que o mundo é feito por mudanças e repetições intermináveis.

            “ O vento, a chuva, o sol, o frio
Tudo vai e vem, tudo vem e vai.” 
(Orides Fontela – poetisa brasileira)
           
            “Nada do que foi será / de novo do jeito que já foi um dia
            Tudo passa / Tudo sempre passará
            A vida vem em ondas / Como o mar
            Num indo e vindo infinito / Tudo o que se vê não é
            Igual ao que a gente viu há um segundo
            Tudo muda o tempo todo no mundo / Não adianta fugir
            Nem mentir pra si mesmo agora / Há tanta vida lá fora
            Aqui dentro sempre / Como uma onda no mar!” 
(Lulu Santos)

DEMOCRACIA E CIDADANIA

A democracia grega possuía, entre outras, duas características  fundamentais para o futuro da Filosofia, para a liberdade de pensar.
Em primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade.
Em segundo lugar, e como consequência, a democracia, sendo direta e não por eleição de representantes, garantia a todos a participação no governo, e os que dele participavam tinham o direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a figura política do  cidadão.
OBS.: É interessante observar que a cidadania, na concepção grega, excluía o que chamavam de dependentes: mulheres, escravos, crianças, velhos e estrangeiros.

  

Mulheres de Atenas – Chico Buarque

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem  pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando instigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados,
Elas tecem longos bordados,
mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
querem arrancar, violentos,
carícias plenas,
obcenas.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros seus maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas

Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas.


APRENDENDO A PENSAR

Sócrates, considerado o pai da Filosofia, andava pelas ruas e praças de Atenas, na Grécia,  pelo mercado e pela assembleia perguntando a cada pessoa:
·         Você sabe o que é isso que está dizendo?
·         Você sabe o que é isso em que você acredita?
·         Você diz que a coragem é importante, mas o que é a coragem?
·         Você acredita que a justiça é importante, mas o que é a justiça?
·         Você diz que ama as coisas e as pessoas belas, mas o que é a beleza?
·         Você crê que seus amigos são a melhor coisa que você tem, mas o que é a amizade?

As pessoas esperavam que o filósofo Sócrates soubesse as respostas, mas para frustração de todos, ele dizia:

·         “Eu também não sei, por isso estou perguntando.”
“Sei que nada sei.”

A consciência da própria ignorância é o começo da Filosofia, é o ponto de partida para começarmos a pensar.


OPINIÃO E CONCEITO

Qual a diferença entre uma opinião e um conceito? A opinião varia de pessoa para pessoa, de lugar para lugar, de época para época. É instável, mutável, depende de cada um, de seus gostos e preferências. O conceito, ao contrário, é uma verdade universal e  necessária que o pensamento descobre.


Metamorfose Ambulante  - Raul Seixas

Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar a um objetivo num instante

Eu quero viver essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
Eu vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhes disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.


IGNORÂNCIA, INCERTEZA E INSEGURANÇA    

Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que sequer a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos.
Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber.
A incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que somos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da realidade, que há falhas naquilo em que acreditamos e que, durante muito tempo, nos serviu como referência para pensar e agir.
Na incerteza não sabemos o que pensar, o que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas, pessoas, fatos, etc.
Outras vezes, estamos confiantes e seguros e, de repente,  vemos ou ouvimos alguma coisa que nos enchem de espanto e de admiração, não sabemos o que pensar ou o que fazer com a novidade porque as crenças, opiniões e ideias que possuímos não dão conta do novo. O espanto e a admiração, assim como antes a dúvida e a perplexidade, nos fazem querer sair do estado de insegurança ou de encantamento, nos fazem perceber nossa ignorância e criam o desejo de superar a incerteza. Quando isso acontece, estamos vivendo a chamada busca da verdade. O desejo da verdade aparece muito cedo nos seres humanos como desejo de confiar nas coisas e nas pessoas. A criança é muito sensível à mentira dos adultos, pois a mentira é diferente do “de mentira”, isto é,  a mentira é diferente da imaginação e a criança se sente ferida, magoada, angustiada quando o adulto lhe diz uma mentira, porque, quando isso acontece, quebra a relação de confiança e de segurança.

PAI – Fábio Júnior

Pai, pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
            Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho, talvez
Pai, pode ser que daqui você sinta
Qualquer coisa entre esses 20 ou 30
Longos anos em busca de paz
Pai, pode crer, eu tô bem
Eu vou indo
Tô tentando, vivendo e pedindo
Com loucura pra você renascer
Pai, eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Pra falar de amor pra você
Pai, senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco, tua voz tá tão presa
Nos ensina esse jogo da vida
Onde a vida só paga pra ver
Pai... me perdoe essa insegurança
É que eu não sou mais aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu, eu
Pai, eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa
E brincar de vovô com o meu filho
No tapete da sala de estar
Pai, você foi meu herói, meu bandido
Hoje é mais, muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz / Pai, pai, paz.

A MEMÓRIA: lembrança e identidade do Eu

A memória é uma evocação do passado. É a capacidade humana para reter e guardar o tempo que se foi, salvando-o da perda total. A lembrança  conserva aquilo que se foi e não retornará jamais.
           
            “Ó que saudade que eu tenho
            Da aurora da minha vida
            Da minha infância querida
            Que os anos não trazem mais.”  (Casimiro de Abreu)
Para alguns filósofos, a memória é a garantia de nossa própria identidade, o que nos permite dizer “eu” reunindo tudo o que fomos e fizemos a tudo o que somos e fazemos.

Os antigos gregos consideravam a memória uma identidade sobrenatural ou divina: era a  deusa  Mnemosyne, mãe das Musas, que protegem as Artes e a História. A deusa Memória dava aos poetas e adivinhos o poder de voltar ao passado e de lembrá-lo para a coletividade. Tinha o poder de conceder imortalidade aos mortais, pois quando o artista ou o historiador registram em suas obras a fisionomia, os gestos, os atos, os feitos e as palavras de um humano, este nunca será esquecido e, por isso, não morrerá jamais.

DETALHES – Roberto Carlos

Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida eu vou viver
Detalhes tão pequenos de nós dois
São coisas muito grandes pra esquecer
E a toda hora vão estar presentes
Você vai ver
Se um outro cabeludo aparecer na sua rua
E isso lhe trouxer saudade minha
A culpa é sua
O ronco barulhento do seu carro
A velha calça desbotada ou coisa assim
Imediatamente  você vai lembrar de mim
Eu sei que um outro deve estar falando
Ao seu ouvido
Palavras de amor como eu falei
Mas eu duvido
Duvido que ele tenha tanto amor
E até os erros do meu português  ruim
E nessa hora você vai lembrar de mim
A noite envolvida no silêncio do seu quarto
Antes de dormir você procura o meu retrato
Mas da moldura não sou quem lhe sorrir
Mas você ver o meu sorriso mesmo assim
E tudo isso vai fazer você  lembrar de mim
Se alguém tocar seu corpo como eu
Não diga nada
Não vá dizer meu nome sem querer a pessoa errada
Pensando ter amor nesse momento
Desesperada você tenta até o fim
E até nesse momento você vai lembrar de mim
Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada
Do tempo que transforma todo amor em quase nada
Mas quase também é mais um detalhe
Um grande amor não vai morrer assim
Por isso de vez em quando você vai
Lembrar de mim
Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida eu vou viver...

PENSAMENTO E IMAGINAÇÃO

            Muitas vezes,  passamos horas matutando, cismando, querendo compreender alguma coisa que nos escapa. Fazemos nossas atividades de todo dia, mas parecemos distraídos porque nossa atenção está concentrada noutra parte, naquilo que estamos querendo compreender e não conseguimos. Cansados, paramos de cismar e de dar atenção ao assunto.
De repente, com susto e alegria, quase gritamos: “Entendi!” Sentimos o mesmo que quando completamos um quebra-cabeça, todas as peças em seus devidos lugares, a figura bem visível diante de nós.
Outras vezes,  assistindo a uma aula, lendo um livro, fazendo um trabalho, resolvendo um problema no computador, vamos acompanhando passo a passo as ideias, os encadeamentos do raciocínio, e ao término temos consciência de que aprendemos alguma coisa que não sabíamos.
Nas duas situações acima, tivemos uma experiência de pensamento.

1.    “Que falta de imaginação!”
2.    “Por favor, use a sua imaginação!”
3.    “Cuidado! Ela tem muita imaginação!”
4.    “Não comece a imaginar coisas!”

Nas frases 1 e 2, a imaginação é tomada como algo positivo, cuja falta ou ausência é criticada. Imaginar, nesses casos, aparece como capacidade mais alargada para pensar, para encontrar soluções inteligentes para algum problema, para perceber o sentido de alguma coisa que não está muito evidente.
Nas frases 3 e 4, a imaginação é tomada como risco de irrealidade, invencionice, mentira, exagero, excesso. Nesses casos, imaginar é inventar ou exagerar, perder o pé da realidade, assumindo, portanto, um sentido bem diferente do anterior.
A imaginação (capacidade de formar imagens), surge, assim, como algo impreciso, situada entre dois tipos de invenção: criação inteligente e inovadora, de um lado; exagero, invencionice, mentira, de outro. No primeiro caso,  ela faz aparecer o que não existia e mostra ser possível algo que não existe.
No segundo caso, ela é incapaz de reproduzir o existente ou o acontecido.

SERÁ – Legião Urbana

Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
É só que isso não é amor
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pr’á que esse nosso egoísmo
Não destrua nosso coração
Brigar p’rá que
Se é sem querer
Quem é que vai nos proteger?
Será que vamos ter
Que responder pelos erros a mais
Eu e você?

SENSO COMUM  X  CIÊNCIA

Senso comum  é um conjunto de opiniões aceitas, num grupo, em determinada época ou região que se passa de uma geração para outra sem nenhuma prova científica. Se manifesta através de provérbios populares, de crendices e de afirmações não confirmadas pela ciência.
·         Onde há  fumaça, há fogo;
·         Quem tudo quer tudo perde;
·         Dize-me com quem andas e te direi quem és;
·         A posição dos astros determina o destino das pessoas (horóscopo);
·         Mulher menstruada não deve tomar banho frio;
·         Ingerir sal quando se tem tontura é bom para a pressão;
·         Mulher assanhada quer ser estuprada;
·         Manga com leite faz mal;

Por não compreenderem o que é ciência, muitas pessoas tendem a confundi-la com magia, ideia alimentada, inclusive, em alguns filmes. Também costumam projetar nas coisas ou no mundo sentimentos de angústia e de medo diante do desconhecido. Assim, durante a Idade Média, as pessoas viam o demônio em toda parte e, hoje, enxergam discos voadores no espaço.
Muitas vezes, o senso comum acaba criando determinados preconceitos.
Ao contrário do senso comum, a atitude científica desconfia  da veracidade de nossas certezas, de nossa adesão imediata às coisas, da ausência de crítica e da falta de curiosidade. Por isso, ali onde o senso comum vê  coisas, fatos e acontecimentos, a atitude científica vê problemas e obstáculos, aparências que precisam ser explicadas e, em certos casos, afastadas, desmentidas. Procura mostrar que o maravilhoso, o extraordinário ou o “milagroso” é um caso particular do que é regular, normal, é uma exceção. Assim, um eclipse, um terremoto, um furacão, embora excepcionais, obedecem às leis da Física. A atitude científica procura, desta forma, apresentar explicações racionais, claras, simples e verdadeiras para os fatos, opondo-se ao espetacular, ao mágico e ao fantástico.

INDIOS – Renato Russo

            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Ter de volta todo o ouro que entreguei
            A quem  conseguiu me convencer
            Que era prova de amizade
            Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Esquecer que acreditei que era por brincadeira
            Que se cortava sempre um pano-de-chão
            De linho nobre e pura ceda.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Explicar o que ninguém consegue entender:
            Que o que aconteceu ainda está por vir
            E o futuro não é mais como era antigamente.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Provar que quem tem mais do que precisa ter
            Quase sempre se convence que não tem o bastante        
E fala demais por não ter nada a dizer.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Que o mais simples fosse visto como o mais importante,
            Mas nos deram espelhos
            E vimos um mundo doente.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
            E esse mesmo Deus foi morto por vocês –
            É só maldade então, deixar um Deus tão triste.
            Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
            Entenda – assim pude trazer você de volta pra mim.
            Quando descobri que é sempre só você
            Que me entende do início ao fim
            E é só você que tem a cura para o meu vício
            De insistir nessa saudade que eu sinto
            De tudo que eu ainda não vi.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Acreditar por um instante em tudo que existe
            E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Fazer com que o mundo saiba que seu nome
            Está em tudo e mesmo assim
            Ninguém lhe diz ao menos obrigado.
            Quem me dera, ao menos uma vez,
            Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
            Não ser atacado por ser inocente.
            Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
            Entenda – assim pude trazer você de volta pra mim
            Quando descobri que é sempre só você
            Que me entende do início ao fim
            E é só você que tem a cura para o meu vício
            De insistir nessa saudade que eu sinto
            De tudo que eu ainda não vi.
            Nos deram espelhos e vimos um mundo doente –
            Tentei chorar e não consegui.


CIÊNCIA E CIÊNCIAS
Ciência, no singular, refere-se a um modo e a um ideal de conhecimento. Ciências, no plural, refere-se às diferentes maneiras de realização do ideal científico, de acordo com os diferentes fatos investigados e os diferentes métodos empregados.

            A MATEMÁTICA

A matemática nasce de necessidades práticas: contar coisas e medir terrenos. Os primeiros a desenvolverem  modos de contar foram os orientais e, particularmente, os fenícios, povo comerciante que desenvolveu uma contabilidade, que daria origem a aritmética. Os primeiros a desenvolverem modos de medir foram os egípcios, que precisavam, após cada cheia do rio Nilo, redistribuir as terras, medindo os terrenos. Criaram a agrimensura, de onde viria a geometria.
Foram os gregos que transformaram a arte de contar e de medir em ciências: a aritmética e a geometria são as duas primeiras ciências matemáticas, definindo o campo matemático como ciência da quantidade e do espaço, tendo por objetos números, figuras, relações e proporções. Após os gregos, foram os pensadores árabes que deram o impulso à matemática, descobrindo, entre outras coisas, o zero, desconhecido dos antigos.




         AS CIÊNCIAS DA NATUREZA

A ciência da natureza, desde seus inícios gregos, sempre afirmou que a natureza segue leis naturais e necessárias, ou seja, sempre negou a existência do acaso no mundo natural.

O acaso sempre foi colocado sob duas espécies de fatos:
            1. Fatos cuja causa ainda permanece desconhecida, mas virá a ser conhecida. Nesse caso o acaso é apenas uma forma de ignorância;

2. Acontecimentos individuais. Exemplo: um vaso que cai sobre a cabeça de um passante. Nesse caso, o acaso é apenas uma ocorrência singular que não afeta as leis universais da natureza.
            As ciências biológicas ou ciências da vida fazem parte das ciências da natureza.

            AS CIÊNCIAS HUMANAS

Embora seja evidente que toda e qualquer ciência é humana, já que resulta da atividade humana de conhecimento, a expressão ciências humanas se refere àquelas ciências que tem o próprio ser humano como objeto dos seus estudos.

1.    PSICOLOGIA – estudo das estruturas, do desenvolvimento  das operações da mente humana (consciência, vontade, percepção, linguagem, memória, imaginação, emoções), bem como do comportamento.

2.    SOCIOLOGIA – estudo das estruturas sociais: origem e formação das sociedades, tipos de organizações sociais, econômicas e políticas.

3.    ECONOMIA – estudo das condições materiais (naturais e sociais) de produção e reprodução da riqueza, de suas formas de distribuição, circulação e consumo.


4.    ANTROPOLOGIA- estudo das estruturas ou formas  culturais em sua singularidade ou particularidade, isto é,  como diferentes entre si por seus princípios internos de funcionamento e transformação. A cultura é entendida como modo de vida global de uma sociedade, incluindo: religião, formas de poder, formas do parentesco, formas de comunicação, organização da vida econômica, artes, técnicas, costumes, crenças, formas de pensamento e de comportamento...

5.    HISTÓRIA – estudo da origem e do desenvolvimento das formações sociais em seus aspectos econômicos, sociais, políticos e culturais, das transformações das sociedades e comunidades como resultado e expressão de conflitos, lutas, contradições internas.

6.    LINGUÍSTICA – estudo das estruturas da linguagem como sistema dotado de princípios internos de funcionamento e transformação e do uso da língua pelos falantes.

7.    PSICANÁLISE – estudo da estrutura e do funcionamento do inconsciente e de suas relações com o consciente, das neuroses e das psicoses.

Monte Castelo – Renato Russo

                        Ainda que eu falasse a língua dos homens
                        E falasse a língua dos anjos,
                        Sem amor eu nada seria.
                        É só o amor, é só o amor
                        Que conhece o que é verdade
                        O amor é bom, não quer o mal
                        Não sente inveja ou se envaidece.
                        Amor é fogo que arde sem se ver
                        É ferida que dói e não se sente
                        É um contentamento descontente
                        É dor que desatina sem doer.
                        Ainda que eu falasse a língua dos homens
                        E falasse a língua dos anjos,
                        Sem amor eu nada seria.
                        É um não querer mais que bem querer
                        É solitário andar por entre a gente
                        É um não contentar-se de contente
                        É cuidar que se ganha em se perder.
                        É um estar-se preso por vontade
                        É servir a quem vence, o vencedor;
                        É um ter com quem nos mata lealdade.
                        Tão contrário a si é o mesmo amor.
                        Estou acordado e todos dormem
                        Todos dormem, todos dormem
                        Agora vejo em parte
                        Mas então veremos face a face.
                        É só o amor, é só o amor
                        Que conhece o que é verdade.
                        Ainda que eu falasse a língua dos homens
                        E falasse a língua dos anjos,
                        Sem amor eu nada seria.








         ORIGEM E FINALIDADE DA RELIGIÃO

O sagrado dá origem à religião, enquanto a sociedade faz aparecer o poder teológico da autoridade religiosa.
O sagrado dá significação ao espaço, ao tempo e aos seres que neles nascem, vivem e morrem.
                       
            Principais finalidades da religião:

1.    Proteger os seres humanos contra o medo da natureza, nela encontrando forças benéficas, contrapostas às maléficas e destruidoras;

2.    Dar aos humanos um acesso à verdade do mundo, encontrando explicações para a origem, a forma, a vida e a morte de todos os seres e dos próprios humanos;

3.    Oferecer aos humanos a esperança de vida após a morte, de diferentes formas;

4.    Oferecer consolo aos aflitos, dando-lhes uma explicação para a dor, seja ela física ou psíquica;

5.    Garantir o respeito às normas, às regras e aos valores  da moralidade estabelecida pela sociedade. Em geral, os valores morais são estabelecidos  pela própria religião, sob a forma de mandamentos divinos, isto é, a religião reelabora as relações sociais existentes como regras e normas, expressões da vontade dos deuses ou de Deus, garantindo a obrigatoriedade da obediência a elas, sob pena de sanções sobrenaturais.
Segundo Marx, “a religião é o ópio do povo”.  Com essa afirmação, ele pretende mostrar que a religião (referindo-se ao judaísmo, ao cristianismo e ao islamismo, isto é, as religiões da salvação) diminui a combatividade  dos oprimidos e explorados, porque lhes promete uma vida futura feliz. Na esperança de felicidade e justiça no outro mundo, os despossuídos, explorados e humilhados deixam de combater as causas de suas misérias neste mundo.



A Cura – Lulu Santos

Existirá, em todo porto tremulará (se hasteará)
A velha bandeira da vida
Acenderá todo o farol iluminará
Uma ponta de esperança
E se virá, será quando menos se esperar
Da onde ninguém imagina
Demolirá toda certeza vã, não sobrará
Pedra sobre pedra
Enquanto isso, não nos custa insistir
Na questão do desejo, não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê que o inferno é aqui
Existirá
E toda raça então experimentará
Para todo o mal, a cura.


CLARISSE – Legião Urbana
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe,
Não se move, não trabalha
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete.
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom samaritano
Cumprindo o seu dever, como se eu fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo resistir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem quatorze anos

O UNIVERSO DAS ARTES

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo.

            (Alberto Caeiro / Fernando Pessoa)

A expressão “eterna novidade  do mundo” refere-se a junção  do eterno e do novo, o que é aparentemente impossível, e essa unidade é feita pelos e para os humanos. É o que chamamos de arte.
A arte é, assim, a busca do  novo. É dessa forma que Claude Monet  pinta várias vezes a mesma catedral e, em cada tela, nasce uma nova catedral.
A obra de arte dá a ver, a ouvir, a sentir, a pensar, a dizer. Nela e por ela, a realidade se revela como se jamais a tivéssemos visto, ouvido, dito, sentido ou pensado. É a experiência de nascer todo dia para a “eterna novidade do mundo”.
O que há de espantoso nas artes é que elas realizam o desvendamento do mundo recriando o  mundo noutra dimensão e de tal maneira que a realidade não está aquém e nem na obra, mas é a própria obra de arte.
Talvez a melhor comprovação disso seja a música. Feita de sons, será destruída se tentarmos ouvir cada um deles ou reproduzi-los como no toque de um corpo de cristal ou de metal. A música, pela harmonia, pela proporção, pela combinação de sons, pelo ritmo e pela percussão, cria um mundo sonoro que só existe por ela, nela e que é ela própria. Recolhe a sonoridade do mundo e de nossa percepção auditiva, mas reinventa o som e a audição como se estes jamais houvessem existido, tornando o mundo eternamente novo.

ESTÉTICA

            A noção de estética, formulada e desenvolvida nos séculos XVIII e XIX, pressupunha:
            1. Que a arte é produto da sensibilidade, da imaginação e da inspiração do artista e que sua finalidade é a contemplação;

            2. Que a contemplação, do lado do artista, é a busca do belo (e não do útil, nem do agradável ou prazeroso) e, do lado do público, é a avaliação ou o julgamento do valor de beleza atingido pela obra;

            3. Que o belo é diferente do verdadeiro.

            De fato, o verdadeiro é o que é conhecido pelo intelecto por meio de demonstrações e provas. O belo, ao contrário, tem a peculiaridade de possuir um valor universal, embora a obra de arte seja essencialmente particular, ou seja, não dá pra comparar com outra. Quando leio um poema, escuto uma música ou observo um quadro, posso dizer que são belos ou que ali está a beleza, embora esteja diante de algo único e incomparável.


Leve – Zeppa / Jorge Vercilo

            Levitar dos colibris
            Graciosamente breve
            Como pode tão feliz?
            Censurar, ninguém se atreve

            Não precisam inventar
            Qualquer coisa que me eleve,
            Basta teu sorriso pra dispensar
            Asa-delta e ultra-leve

            Se carece de definição: me sinto leve
            Céu azul na bolha de sabão que o vento leve
            Como folha, o coração

            Ao te refletir, um espelho em si   
Vira quadro, vira arte
            Salvador Dali não ousou imaginar-te

            E eu me sinto flutuar,
            Maravilha que me elege
            Feito pipa pelo ar, mar azul na areia bege
            Como brisa a me beijar
            Teu carinho me protege
            Me abraça, me derrete ao brincar
            Como o mar no iceberg

            Com você não tem explicação
            Me sinto leve
            Céu azul na bolha de sabão
            E o vento rege como folha, o coração

            Ao te refletir, um espelho em si
            Vira quadro, vira arte
            Salvador Dali não ousou jamais imaginar-te




ESTA APOSTILA CONTÉM TRANSCRIÇÕES DE:

1.     Professora Darcília Simões
2.     Professora Marilena Chaui


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