quarta-feira, 5 de agosto de 2009

HERMENÊUTICA PARA O CURSO BÁSICO

HERMENÊUTICA: Princípios de Interpretação Bíblica

APRESENTAÇÃO

Antes de percebermos o significado de um texto bíblico para os nossos dias, precisamos compreender seu significado para a época em que foi escrito, para os seus primeiros leitores. Nesse processo, não podemos, de jeito nenhum, descartarmos a hermenêutica (ciência e arte de interpretação), pois estaríamos passando por cima de uma etapa indispensável do estudo bíblico e deixando de nos beneficiar dela.

Nesse processo de estudo do texto bíblico, a primeira etapa, que é a observação, parte da pergunta: “Que diz o texto?”. A segunda etapa, a interpretação, indaga: “Que quer dizer?”. E por fim, a terceira etapa, que é a aplicação, questiona: “Como se aplica a mim?”

Tem uma galera que interpreta a Bíblia de maneira equivocada, alegando, inclusive, que um determinado texto pode ter inúmeras interpretações, dependendo de quem o lê, ignorando, desta forma, as diretrizes apropriadas da hermenêutica.
Será que a intenção de Deus era que a Bíblia fosse trabalhada dessa forma? Oxente, se conseguirmos manipular a Bíblia para extrairmos dela o sentido que desejarmos, ela não pode ser um guia confiável.
O que não falta são interpretações divergentes de inúmeras passagens. Vou reproduzir a seguir alguns exemplos extraídos do livro “A Interpretação Bíblica: meios de descobrir as verdades da Bíblia”, de Roy B. Zuck: “Alguns são de opinião de que a declaração de Paulo, em Colossenses 1:15, de que Cristo é “o primogênito de toda a criação”, significa que Ele foi criado. Outros, por sua vez entendem que como acontece com o primogênito de toda família, Ele é o herdeiro. Os pentecostais praticam o chamado ‘falar em línguas’ com base em 1 Coríntios 12-14. Já outros grupos leem os mesmos capítulos e entendem que tal prática limitava-se à era apostólica, não aplicando-se à atualidade. Naum 2:4 (‘os carros passam furiosamente pelas ruas, e se cruzam velozes pelas praças..’) já levou à conclusão de que se trata de uma profecia sobre o trânsito intenso de automóveis em nossas cidades modernas. Alguns procuram atribuir um sentido ‘espiritual’ à parábola do bom samaritano (Lc 10:25-37), explicando que a hospedaria para onde o ferido foi levado simboliza a igreja e que as duas moedas de prata dadas ao hospedeiro representam a ceia do Senhor e o batismo nas águas... Há quem segure cobras venenosas porque leu Marcos 16:18. A questão das mulheres ensinarem ou não aos homens, depende da interpretação de 1 Coríntios 11:5; 14:34-35 e 1 Tm 2:12.”
O Dr. D.A. Carson, em seu livro “Os Perigos da Interpretação Bíblica”, faz os seguintes questionamentos: “Por que será que entre aqueles que têm conceitos elevados acerca da autoridade das Escrituras, há alguns que acham que línguas são o sinal definitivo do batismo do Espírito, outros que acreditam que o dom de línguas é opcional e outros ainda que pensam que isso não existe mais como dom genuíno? Por que algumas pessoas defendem uma abordagem dispensacionalista das Escrituras, enquanto outras se consideram ‘teólogos da aliança’? Por que existem vários tipos de calvinistas e arminianos, batistas e adeptos do batismo infantil? Por que alguns defendem resolutamente uma forma presbiteriana de organização da igreja, outros são a favor de algum tipo de congregacionalismo e outros ainda desejam uma estrutura hierárquica dos três ofícios, que predominou no Ocidente por quase um milênio e meio a partir da época dos pais pós-apostólicos? Posso perguntar qual é o significado da Santa Ceia? Ou por que existe tal superabundância de opiniões com relação à escatologia?”
Todas essas – como tantas outras – são questões de interpretação. Essa discrepância de concepção ressalta que nem todos os leitores seguem os mesmos princípios para compreenderem o texto bíblico, o que denota a ausência de uma hermenêutica correta.
Um estudioso mais sensível da Bíblia – escreve o Dr. Carson – poderia perguntar: “Se há tantas armadilhas exegéticas e ciladas hermenêuticas, como posso ter certeza de que estou interpretando e pregando as Escrituras de maneira correta? Como posso evitar o terrível fardo de ensinar alguma inverdade, depositar na consciência do povo de Cristo coisas que Ele próprio não impõe ou eliminar aquilo que Ele insiste em manter? Quantos danos poderei causar com minha ignorância e falta de habilidade exegética?”
A interpretação bíblica é essencial para a sua aplicação correta, apoiando-se, primeiramente, na observação e, depois, conduzindo a prática. O objetivo do estudo da Bíblia não se limita a apurar o que ela diz e o seu significado: inclui sua aplicação à vida do leitor.
A Bíblia nos fornece muitos fatos acerca de Deus, de nós mesmos, do pecado, da salvação e do futuro, os quais precisamos conhecer. Nela buscamos informação e entendimento. A questão, todavia, é o que fazer com essa informação e com esse entendimento. A interpretação é a etapa que nos transporta da leitura e da observação do texto para sua aplicação, o que significa dizer que a interpretação bíblica é absolutamente essencial à aplicação. Se nossa interpretação não for correta, podemos acabar aplicando a Bíblia de forma incorreta. A forma como são interpretadas determinadas passagens afeta diretamente o comportamento do intérprete, bem como de outras pessoas. Assim, quando a Bíblia não é interpretada corretamente, a teologia de um indivíduo ou de toda uma igreja pode tornar-se desconhecida ou superficial, e seu ministério, conseqüentemente, desequilibrado.
Embora boa parte do nosso povo encha a boca e estufe o peito para dizer que a Bíblia é nossa regra de fé, a maioria não tem o hábito de lê-la, e então a regra de fé dessa galera passa a ser, na prática, os sermões que ouve, as letras de nossas músicas (nem sempre uma belezura) e a própria mídia. O efeito disso, claro, é devastador para o Cristianismo.

Isac Machado de Moura

QUESTIONAMENTOS COMUNS ENTRE OS LEITORES DA BÍBLIA

Como saber se uma passagem foi apenas para o seu público-alvo original ou se também se destina às gerações seguintes?

Uma passagem pode ter mais de um significado? Caso seja possível, como descobrir?

Será que alguns dos autores da Bíblia escreveram coisas acima de seu entendimento?

A Bíblia é mais do que um livro humano?

Se é também um livro divino, como isso influencia nossa interpretação de passagens diversas?

De que forma devemos interpretar os diferentes provérbios das escrituras? Eles têm aplicação universal?

Se acreditamos na interpretação literal, como ela influi em nossa compreensão das figuras de linguagem?

Se a Bíblia contém figuras de linguagem, então toda ela deve ser interpretada num sentido “espiritual” ou místico?

Como entender as profecias, já que existem interpretações divergentes das profecias bíblicas? Então como saber qual mais provavelmente é correta?

Por que o Novo Testamento faz citação do Antigo, que aparentemente revela um sentido diferente do que se lê neste?

Como passar da interpretação à aplicação?


DEFINIÇÕES DE HERMENÊUTICA

A palavra hermenêutica vem do grego e está relacionada a Hermes, o deus-mensageiro da mitologia grega, a quem cabia transformar o que estava além do entendimento humano em algo que a inteligência humana pudesse assimilar. Era o mensageiro ou intérprete dos deuses. Assim, o termo passou a significar o ato de levar alguém a compreender algo em seu próprio idioma (explicar) ou em outra língua (traduzir).

Hermenêutica - É a ciência e a arte que estuda a interpretação da Bíblia. Ciência porque estabelece regras positivas e invariáveis. Arte porque as suas regras são práticas.
[Do grego hermeneuticós] Ciência que tem por principal objetivo descobrir o verdadeiro significado de um texto. É a base para toda a crítica filológica. Quando empregada nas Sagradas Escrituras, a sua missão passa a ser interpretar o que realmente Deus quer revelar através da Bíblia.

Exegese - É a aplicação das regras estabelecidas pela hermenêutica.
[Do grego ek + egéomai] Literalmente, arranjo do texto.
É a prática da hermenêutica sagrada que busca a real interpretação dos textos que formam o Antigo e o Novo Testamento. Vale-se, pois, do conhecimento das línguas originais (hebraico, aramaico e grego), da confrontação dos diversos textos bíblicos e das técnicas aplicadas na linguística e na filologia.

A exegese pode ser definida como verificação do sentido do texto bíblico dentro dos seus contextos histórico e literário.
A exposição consiste na transmissão do significado do texto e sua aplicabilidade ao ouvinte moderno.
Assim, podemos dizer que a exegese é a interpretação propriamente dita da Bíblia, ao passo que a hermenêutica consiste nos princípios pelos quais se verifica o sentido.

RESTRIÇÕES NA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

Paulo escreveu (1 Co 2:14) que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito Santo de Deus, porque lhe são loucuras: e não podem entendê-las porque elas se discernem espiritualmente.” Levando-se em conta que o verbo grego gnosko (compreender) significa compreender por experiência e não pelo intelecto, isso significa dizer que quem não teve uma experiência pessoal com Deus tem dificuldade de receber e assimilar as verdades espirituais contidas na Bíblia.
Outra coisa: nenhum intérprete da Bíblia é infalível. Portanto, é preciso admitir a possibilidade de sua interpretação de determinadas passagens não estar correta.
A participação do Espírito Santo na interpretação bíblica indica várias coisas:

1. Não significa que as interpretações de alguém serão infalíveis. Inerrância e infalibilidade são características dos originais, não de seus intérpretes;

2. A participação do Espírito na interpretação não quer dizer que Ele desvende para alguns intérpretes um sentido “oculto”, diferente do significado normal da passagem;

3. O cristão que esteja vivendo em pecado é suscetível de interpretar erroneamente o texto bíblico, uma vez que seu coração e a sua mente não estão em harmonia com o Espírito Santo;

4. O Espírito Santo guia-nos a toda a verdade (Jo 16:13). O verbo guiar significa “ir na frente ou conduzir ao longo do caminho ou da estrada.”

5. O papel do Espírito Santo na interpretação da Bíblia significa que ele não costuma conceder vislumbres intuitivos ou repentinos sobre o sentido dos textos bíblicos. Muitas passagens podem ser entendidas à primeira vista; já o sentido de outras, às vezes, só é esclarecido gradualmente, depois de estudo cuidadoso, ou seja, a participação do Espírito na hermenêutica não pressupõe uma atuação misteriosa, que não se pode explicar nem averiguar.

6. O papel do Espírito na interpretação indica que a Bíblia foi dada para que todos os crentes a entendessem. Sua interpretação não pertence a uma elite, a uma minoria de eruditos ou a uma denominação.


Só mais uma coisinha para finalizar este tema: “As questões de ordem prática não podem ser resolvidas exclusivamente por meios espirituais. Não se pode orar a Deus pedindo informação sobre a autoria de Hebreus e ter por certo uma resposta clara. Não cabe também orar a respeito de outras questões elementares relativas a Bíblia e crer que receberá uma revelação sobre a revelação.” O estudante da Bíblia precisa aproximar-se das Escrituras com equilíbrio e bom senso, procurando ser o mais objetivo possível, sem prevenções nem opiniões preconcebidas.


A BÍBLIA É UM LIVRO DIVINO E HUMANO

Uma verdade sobre a Bíblia, evidente por si mesma, é que ela é um livro. Como outros livros, foi escrita em línguas faladas pelos seres humanos com o propósito de transmitir conceitos dos escritores para os leitores.
Outra observação óbvia para qualquer cristão é que a Bíblia é um livro divino. Sendo assim, apesar de assemelhar-se a outros livros, é incomparável por sua origem divina.
Concluímos, então, que a Bíblia é um livro divino e humano. A partir desse pressuposto, podemos observar alguns princípios de interpretação.


A BÍBLIA COMO UM LIVRO HUMANO

Cada passagem bíblica (cada palavra, frase ou livro) foi registrada em linguagem escrita, obedecendo a sentidos gramaticais comuns, incluindo a linguagem figurada e expressões idiomáticas.

QUESTIONAMENTO: Qual o significado gramatical das palavras para os leitores contemporâneos do autor?

Todo texto bíblico foi escrito por alguém para ouvintes ou leitores específicos, que se encontravam num contexto histórico específico, e com um objetivo específico.

QUESTIONAMENTO: O que essas palavras transmitiram para os primeiros leitores?

A Bíblia foi afetada e influenciada pelo meio cultural em que cada autor humano a escreveu, incluindo elementos de agricultura, arquitetura, geografia, sistema militar e aspecto político.

QUESTIONAMENTO: Como o ambiente cultural influenciou e afetou o que foi escrito?

Cada passagem bíblica era apreendida ou entendida tendo em mente o seu contexto.

QUESTIONAMENTO: Qual é o significado das palavras dentro de seu contexto?

Cada escritor bíblico escreveu dentro de um gênero literário específico.

QUESTIONAMENTO: Em que gênero literário o trecho foi escrito e como isso influenciou no que foi dito?

Os primeiros leitores entendiam cada escrito bíblico de acordo com os princípios básicos da lógica e da comunicação.

QUESTIONAMENTO: Como os princípios da lógica e da comunicação normal influenciam no sentido?


A BÍBLIA COMO UM LIVRO DIVINO

“Toda Escritura é inspirada por Deus...” (2 Tm 3:16)

Embora Deus tenha usado autores humanos para escrever as Escrituras, com seus estilos de linguagem particulares e expressando suas próprias personalidades, as palavras que registram foram “inspiradas” por Ele.

Por ser um livro divino, a Bíblia é inerrante (os originais não contêm erros);

Como a Bíblia é um livro divino, é fonte indiscutível, determinando nossas crenças e nosso modo de viver;

Como a Bíblia é um livro divino, apresenta unidade, mesmo tendo sido escrita por mais de 40 escritores diferentes, num período superior a um milênio;

Como a Bíblia é um livro divino, apresenta alguns mistérios (textos de difícil interpretação).

A IMPORTÂNCIA DO CONTEXTO

Em qualquer cultura ou época, os escritores de um documento, assim como os leitores, sofreram a influência do contexto social. Assim, o conhecimento do contexto cultural de um trecho ajuda-nos também a entender o significado daquele documento para os primeiros leitores.
O contexto abrange vários elementos:

O(s) versículo(s) imediatamente anterior(es) e posterior(es);
O parágrafo e o livro em que o versículo se encontra;
A dispensação em que foi escrito;
A mensagem de toda a Bíblia;
O ambiente histórico-cultural da época em que foi escrito.


O ABISMO CULTURAL

“A não ser que acreditemos que a Bíblia tenha caído do céu de paraquedas, escrita com uma pena celestial numa língua celestial exótica, exclusivamente adequada como instrumento de revelação divina, ou então que foi ditada por Deus direta e imediatamente, sem referência a nenhum costume regional, estilo ou perspectiva, seremos obrigados a encarar os abismos culturais. Isto é, a Bíblia retrata a cultura de sua época.”
É assim: quando abrimos a Bíblia é como se estivéssemos entrando num país estranho
A seguir, relaciono, a partir do livro “A Interpretação Bíblica: meios de descobrir as verdades da Bíblia”, de Roy B. Zuck, alguns exemplos de passagens bíblicas cuja interpretação depende do conhecimento de certos aspectos do contexto cultural.

POLÍTICA: Por que o rei Belsazar concedeu a Daniel a terceira posição no governo babilônico, e não a segunda, conforme Daniel 5:7,16?

Porque, segundo a história, Belsazar era, na realidade, o segundo no comando. Nabonido, seu pai, ausentara-se do país por um longo período.


RELIGIÃO: Por que Moisés deu um mandamento tão estranho: “não cozerás o cabrito no leite de sua própria mãe”, conforme Ex 23:19; 34:26; Dt 14:21?
De acordo com descobertas arqueológicas, tal hábito era parte de um ritual cananeu. Como Deus não queria que israelitas participassem de nenhuma prática religiosa cananeia, veio a proibição.


ECONOMIA: Por que o parente mais chegado de Elimeleque deu sua sandália a Boaz (Rt 4:8,17)?
Tal ato simbolizava a cessão de direito de uma pessoa sobre a terra que pisava. Agia-se assim quando era concluída a negociação de um terreno.

AGRICULTURA: Por que Amós chamou as mulheres de Betel de “vacas de Basã” (Am 4:1)?
As vacas de Basã, área fértil a nordeste do mar da Galiléia, eram conhecidas por serem gordas. As mulheres de Betel, à semelhança daquelas vacas, eram ricas e preguiçosas e pouco faziam além de comer e beber. Pegou pesado o companheiro, né?

ARQUITETURA: Como Raabe podia ter uma casa em cima de uma muralha (Js 2:15)?
Jericó tinha muralhas duplas, e o intervalo entre elas era cheio de terra, de forma que se podiam construir casas ali

VESTIMENTAS: Qual o significado da expressão “tomará alguém fogo no seio” (Pv 6:27)?
A palavra “seio” pode significar uma dobra de roupa que funciona como um bolso para carregar coisas.

VIDA DOMÉSTICA: Por que, em Lucas 9:59, o homem disse que queria enterrar o pai antes de seguir a Jesus?
Ele não quis dizer que o pai acabara de morrer, mas que se sentia obrigado a esperar sua morte, mesmo que levasse vários anos; provavelmente, para receber sua herança. Isso explica sua relutância em seguir a Jesus.

CONQUISTAS MILITARES: Por que Habacuque diz que os babilônios “... amontoando terra, as cidades tomam” (Hc 1:10)?
Trata-se da construção de rampas de acesso junto às muralhas. Como muitas cidades eram edificadas no alto dos montes e tinham muralhas, a única forma do inimigo atacá-las era amontoando terra e destroços para diminuir a diferença de nível.

HÁBITOS SOCIAIS: Por que Jesus mandou que os discípulos não cumprimentassem ninguém pelo caminho (Lc 10:4)?
Ele não estava incentivando uma atitude antissocial; desejava apenas que os discípulos não se atrasassem no cumprimento da missão. É que as saudações consumiam muito tempo: cada um se curvava várias vezes, repetia o cumprimento e então comentava os acontecimentos do dia.
Assim, através desses poucos exemplos, concluímos que o desconhecimento de tais costumes pode levar o leitor a um entendimento incorreto do significado dos textos.

Até que ponto os textos bíblicos podem ser limitados pelos fatores culturais?

Um dos problemas mais importantes que os intérpretes da Bíblia enfrentam é o das passagens restritas a uma cultura. Será que certas passagens bíblicas estão restritas àquela época pelos aspectos culturais, não podendo ser transportadas para nossa cultura, ou será que tudo o que lemos nas Escrituras vale para hoje? Se determinadas passagens têm essa limitação, então como saberemos quais se aplicam à nossa cultura e quais não se aplicam?
Essa questão é muito importante por causa das duas funções do intérprete: descobrir o significado do texto para os primeiros leitores, dentro daquele contexto cultural, e verificar seu significado para nós, hoje, em nosso contexto.
Nem todos os costumes bíblicos têm aplicação hoje.


Como determinar se um costume bíblico era temporário ou se deve ser permanente?

Certas situações, mandamentos ou princípios são aplicáveis, contínuos ou irrevogáveis e/ou dizem respeito a temas morais e teológicos e/ou são repetidos em outras partes das Escrituras, sendo, portanto, permanentes e transferíveis para nós (Gn 9:6; Pv 3:5,6; Ef 6:10-19; 1 Pe 5:6; 1 Tm 2:8);

Certas situações, mandamentos ou princípios dizem respeito às circunstâncias específicas de um indivíduo e/ou temas que não possuem caráter moral ou teológicos e/ou foram revogados, sendo, portanto, inaplicáveis na atualidade (2 Tm 4:11-13; Gn 22:1-19; Hb 7:12; 10:11; Lv 20:11 – comparar com 1 Co 5:1-5).


Determinadas situações ou mandamentos dizem respeito a contextos culturais que se assemelham apenas parcialmente ao nosso e nos quais só os princípios são aplicáveis, não justificando-se, necessariamente, a prática, mas apenas a interpretação, ou seja, os princípios que haviam por trás de tal atitude (Rm 16:16; 1 Co 16:20; 2 Co 13:12; 1 Ts 5:26; 1 Pe 5:14).

Certas situações ou mandamentos dizem respeito a contextos culturais totalmente diferentes, mas em que os princípios se aplicam (Mt 26:7,8).

Vamos testar nosso conhecimento sobre costumes bíblicos?

Coloque T para temporário e P para permanente

Cumprimentar-se uns aos outros com beijo santo (Rm 16:16): __
Abster-se de carnes oferecidas a ídolos (At 15:29): ___
Lavar os pés uns dos outros (Jo 13:14): ____
Proibir as mulheres de falarem na igreja (1 Co 14:34): ___
Abster-se de comer sangue (At 15:29): ____
Não fazer juramentos (Tg 5:12): ___
Ungir os enfermos com óleo (Tg 5:14): ____
Proibir as mulheres de ensinarem aos homens (1 Tm 2:12): ___
A pregação deve ser feita em dupla (Mc 6:7): ____
Pregar em sinagogas judaicas (At 14:1): ___
Proibir as mulheres de usarem cabelos frisados, ouro ou pérolas (1 Tm 2:9): ___
Abster-se de relações sexuais ilícitas (At 15:29): ___
Ser circuncidado (At 15:5): ___
As mulheres devem orar com a cabeça coberta (1 Co 11:5): __
Tomar a ceia num único cálice (Mc 14:23): ___
Evitar orar em público (Mt 6:5,6): ___
Usar sandálias e uma só túnica (Mc 6:9): ___
Não comer a carne de animais mortos por estrangulamento (At 15:29): ___

A QUESTÃO GRAMATICAL

A Bíblia foi escrita, originalmente, em hebraico, aramaico e grego. É claro que o conhecimento dessas línguas torna-se muito útil para uma melhor interpretação bíblica, o que não significa que quem não as domina esteja impossibilitado de interpretá-la.
A interpretação gramatical consiste em atentar para as palavras bíblicas e seu emprego, o que é fundamental para o seu correto entendimento.

MANEIRAS DE DESCOBRIR O SIGNIFICADO DE UMA PALAVRA:

Examine sua etimologia, até mesmo o significado original e quaisquer outros que surgiram a partir dele;

Descubra como a palavra é empregada:
a) pelo mesmo autor no mesmo livro;
b) pelo mesmo autor em outros livros da Bíblia;
c) por outros autores da Bíblia;
d) por outros autores em outros documentos da época.

Descubra como são empregados os sinônimos e os antônimos;

Analise o contexto;

Verifique qual dos diversos sentidos possíveis de uma palavra melhor se enquadra na idéia da passagem.


A QUESTÃO LITERÁRIA

Como obra literária, a Bíblia traz o registro de experiências humanas. Ela fala de emoções e conflitos; vitórias e derrotas; alegrias e tristezas; defeitos, pecados e qualidades; prejuízos e benefícios espirituais. Intrigas, suspense, emoções, fraquezas, desilusões, contratempos e muitas outras experiências humanas podem ser encontradas em suas páginas.
Assim, para uma melhor compreensão do texto bíblico, é interessante que identifiquemos seus diferentes gêneros literários, como história, lei, narrativa, poesia, profecia, evangelho, epístolas, literatura sapiencial, etc.. É importante saber se estamos tratando de uma epístola ou de uma narrativa, de poesia ou de escritos proféticos. “Como certas partes da Bíblia têm formatos literários, faz-se necessária uma abordagem literária para entender o que está sendo dito.”

COMO SABER SE UMA EXPRESSÃO APRESENTA SENTIDO FIGURADO OU LITERAL?

Adote sempre o sentido literal de uma passagem a menos que haja boas razões para não fazê-lo. Quando João disse que 144 mil serão selados, 12 mil de cada uma das 12 tribos de Israel, não há motivos para não se respeitar o sentido normal, literal (Ap 7:4-8). No entanto, no versículo seguinte, o apóstolo refere-se ao “cordeiro” – expressão relacionada a Cristo e não a um animal, como fica claro em João 1:29.

Deve-se levar em conta o sentido figurado sempre que o literal implica uma impossibilidade. O Senhor disse a Jeremias que o havia colocado “por coluna de ferro e por muros de bronze” (Jr 1:18). Veja também: Ap 1:16; Sl 57:1; Ml 1:2.


O sentido é figurado sempre que o literal representar um absurdo: Is 55:12; Jo 6:53-58 (comer a carne e beber o sangue de Jesus).

É bom perceber que a linguagem figurada não representa a antítese da interpretação literal, mas seu complemento.


AS FALÁCIAS

Falácias são erros de interpretação, são falhas no processo, e podem ser classificadas como: vocabulares, gramaticais, lógicas, históricas e de pressupostos.
Em seu estudo sobre falácias, no livro já citado, o Dr. Carson registra: “É evidente que algumas palavras simplesmente perdem sua utilidade e desligam-se do uso comum da língua (por exemplo, “forde”, significando um automóvel de baixo preço). Muito mais capciosas são aquelas que permanecem na língua, mas têm alteração de significado. Por exemplo, antigamente, ‘pedagogo era o escravo que conduzia as crianças à escola; significou depois o professor’. O mesmo acontece com as línguas bíblicas... uma palavra hebraica que significa um coisa em um estágio anterior da língua escrita e outra em uma fase posterior, ou uma palavra grega cujo sentido no grego clássico é diferente daquele no Novo Testamento, podem facilmente levar um estudioso desavisado a cair na armadilha da falácia da obsolescência semântica.”

Agora vejamos um exemplo de uma falácia lógica em que distinções não são reconhecidas: “... É claro que a Bíblia ensina que em Cristo não há nem homem nem mulher (Gl 3:28); mas será que a Bíblia quer dizer que o homem e a mulher são semelhantes em todos os aspectos? Quem dará à luz os bebês? Ou agora é minha vez? O contexto de Gálatas 3:28 mostra que a preocupação nesta passagem é com a justificação. Ao se colocarem perante Deus, homens e mulheres são como um: nenhum goza de qualquer vantagem em especial, cada um é justificado pela graça mediante a fé. Mas Paulo escreveu outras passagens (1 Co 14:33b-36; 1 Tm 2:11-15) que, baseando-se nisso, parecem impor certas distinções entre as funções dos homens e das mulheres na igreja. Mesmo se no final alguém concluir que essas passagens não significam o que parece, é metodologicamente ilícito decidir por antecipação que, por serem homens e mulheres semelhantes em certos aspectos, eles são semelhantes em todos os aspectos.
De acordo com Lucas, Pedro cita Joel quanto ao fato de que tanto homem quanto mulheres profetizarão (At 2:17); e sem dúvida, no Novo Testamento, as mulheres de fato profetizam (At 21:9; 1 Co 11:2-16). Mas Pedro também diz que a mulher é a parte mais frágil (1 Pe 3:7). Se isto diz respeito à força física ou a alguma outra coisa, de qualquer forma implica em certo tipo de distinção...”


EXPRESSÃO IDIOMÁTICA

É uma figura de linguagem própria de determinado idioma ou de indivíduos de uma determinada região. Também é chamada de idiomatismo ou metáfora morta, incorporada de tal forma ao idioma que quem ouve ou lê nem pensa no sentido básico das palavras, mas apenas no sentido idiomático.
Exemplos de expressões idiomáticas brasileiras:
1. Pisar em ovos
2. virar a mesa
3. ficar de queixo caído
4. dar com os burros n’água
5. ficar a ver navios
6. estar na fossa
7. bater as botas
8. cair na cama
9. pôr o pé na tábua
10. amarelar

E então, o que você acha que um estrangeiro que não conheça tais detalhes da nossa língua poderia pensar ao ouvir tais expressões?
Na Bíblia ocorrem também diversas expressões idiomáticas do hebraico e do grego.
A resposta de Jesus a Maria, em João 2:4, poderia ser melhor traduzida por: “o que nós temos a ver com isso?”
A pergunta de 1 Reis 19:20: “que te fiz eu?”, ficaria melhor como: “Por favor, prossiga; você tem a minha permissão.”
O registro grego de Romanos 16:4, “Deram seus pescoços”, ficaria melhor para nós como: “arriscaram o pescoço”.
Será que a mulher de Ló transformou-se mesmo, literalmente (como nós compreendemos) numa estátua de sal?

FIGURAS DE LINGUAGEM

As regras gramaticais de uma língua determinam a função habitual das palavras. Em alguns casos, porém, o orador ou escritor põe essas regras de lado intencionalmente a fim de empregar novas formas, as quais chamamos figuras de linguagem. Uma figura de linguagem, portanto, é simplesmente uma palavra ou uma frase empregada de forma diferente de seu uso habitual:

SÍMILE – é uma comparação em que uma coisa lembra outra de maneira clara, através de elementos comparativos: como, assim como, tal qual, tal como): 1 Pe 1:24; Lc 10:3; Sl 1:3,4.

METÁFORA – trata-se de uma comparação abreviada, ou seja, sem a utilização de elementos comparativos. Quando eu digo: "minha mãe é uma santa", estou utilizando uma metáfora, comparando minha mãe a uma santa, ou seja, minha mãe, assim como uma santa, é benevolente, paciente, ajudadora, amorosa. Observe: Is 40:6; Jr 50:6; Mt 5:13; Jo 10:7,9; 6:48.

METONÍMIA ou SINÉDOQUE – substituição de uma palavra por outra, com a qual mantenha alguma relação. Existem diversos tipos:

a) o efeito pela causa: “Eu te amo, ó Senhor, força minha” (Sl 18:1). A força (efeito) é empregada em lugar da causa (o Senhor).

b) O elemento que contém pelo seu conteúdo: 1 Co 10:21; Os 1:2; Mt 3:5; Mc 3:25; Hb 13:4; Mt 15:8.

c) O todo pela parte: Lc 2:1; Rm 1:16 (grego = todos os gentios).

d) A parte pelo todo: “Os pés correm para o mal...” (Pv 1:16); Rm 16:4.

PERSONIFICAÇÃO
- atribuição de características ou ações humanas a objetos inanimados, conceitos ou animais: Is 35:1; 55:12; Rm 6:9; 1 Co 15:55.

APÓSTROFE – consiste numa referência direta a um objeto como se fosse uma pessoa, a uma pessoa ausente ou imaginária como se estivesse presente. É assim: através da personificação, o escritor fala de um objeto como se fosse uma pessoa; através da apóstrofe, ele fala com o objeto como se fosse uma pessoa: Sl 114:5; Mq 1:2; Sl 6:8.

ANTROPOMORFISMO – atribuição de qualidades, elementos físicos ou ações humanas a Deus: Sl 8:3; 31:12; 2 Cr 16:9.

ZOOMORFISMO – atribuição de características animais a Deus: Sl 91:4; Jó 16:9.

ANTROPOPATIA – atribuição de emoções humanas a Deus: Zc 8:2.

EUFEMISMO – substituição de uma expressão forte, desagradável ou de grande impacto por uma mais suave: At 7:60; 1 Ts 4:13-15.

HIPÉRBOLE – é uma afirmação exagerada, além do real, do possível, com o objetivo de enfatizar aquilo que se fala: Dt 1:28; Sl 6:6; 119:136; Mq 6:7; 1 Sm 18:7; 2 Sm 1:23; Mt 23:24; 2 Cr 36:23; Mt 16:26; Lc 6:42; Jó 19:3; Dn 1:20.

IRONIA – é uma forma de ridicularizar indiretamente sob a forma de elogio, ou seja, o escritor ou o falante diz exatamente o contrário daquilo que pensa: 2 Sm 6:20; 1 Rs 18:27; Jó 12:2; Mc 7:9; 1 Co 11:19; Et 6:6.

PERGUNTA RETÓRICA – é aquela pergunta que não exige resposta; seu objetivo é forçar o leitor ou o ouvinte a respondê-la mentalmente, avaliando suas implicações: Gn 18:14; Jr 32:27; Rm 8:31; Lc 12:17; Mt 26:55; Lc 11:11,12; Mc 3:23; 4:21; 8:18; 1 Co 12:7.

PARÁBOLAS

A parábola é um tipo de linguagem figurada em que se fazem comparações. Só que em vez de usar uma só palavra ou expressão para a comparação ou analogia, como acontece na símile ou na metáfora, a parábola faz uma ampla analogia em forma de história. Assim, a parábola é uma história baseada em fatos do cotidiano com o objetivo de ilustrar e tornar clara uma verdade. Apesar de ter base plausível, ela pode não ter realmente acontecido com todos os detalhes como foi apresentada.

Os acontecimentos históricos podem servir de ilustrações, mas as parábolas são histórias especiais, não necessariamente fatos históricos, contada para ensinar certa verdade.
Os ouvintes ou leitores, ao perceber a comparação ou analogia, entre a história propriamente dita e a situação em que se encontram, são estimulados a pensar.

Antes de se interpretar uma parábola, é interessante que se pergunte:

· Qual o objetivo da história?
· Que verdade espiritual está sendo ilustrada?
· Que analogia está sendo feita?

Apesar de não ser classificada como parábola, a história que Natã contou sobre a ovelha (2 Sm 12:1-13) apresenta características desse gênero literário.
É interessante observar que as parábolas, em geral, não apresentam nomes dos personagens.

As 35 parábolas de Jesus

1. As duas casas - Mt 7:24-27; Lc 6:47-49
2. O remendo e os odres novos - Mt 9:16,17
3. O Semeador - Mt 13:3; Mc 4:3; Lc 8:5
4. O Joio - Mt 13:24-30
5. O Grão de Mostarda - Mt 13:31; Mc 4:30; Lc 13:18
6. O Fermento - Mt 13:33; Lc 13:20,21
7. O Tesouro Escondido - Mt 13:44
8. A Pérola de Grande Valor - Mt 13:45,46
9. A Rede de Pesca - Mt 13:47-50
10. O Credor Incompassivo - Mt 18:23-35
11. Os Trabalhadores da Vinha - Mt 20:1-16
12. Os Dois Filhos - Mt 21:28-32
13. Os Lavradores Maus - Mt 21:33; Mc 12:1; Lc 20:9
14. As Bodas - Mt 22:1-14
15. Os Dois Servos - Mt 24:45-51; Lc 12:42-48
16. As Dez Virgens - Mt 25:1-13
17.Os Talentos - Mt 25:14-30
18. A Semente Plantada às Ocultas - Mc 14:26-29
19. O Porteiro - Mc 13:34-37
20. Os Meninos Mal Educados - Lc 7:31-35
21. Os Dois Devedores - Lc 7:41-43
22. O Bom Samaritano - Lc 10:25-37
23. O Amigo à Meia-Noite - Lc 11:5-8
24. O Homem Rico - Lc 12:16-21
25. A Figueira Estéril - Lc 13:6-9
26. A Grande Ceia - Lc 14:15-24
27. A Torre Inacabada e a Guerra
Precipitada do Rei - Lc 14:28-33
28. A Ovelha Perdida - Mt 18:12-14; Lc 15:4-7
29. A Dracma Perdida - Lc 15:8-10
30. O Filho Pródigo - Lc 15:11-32
31. O Administrador Infiel - Lc 16:1-9
32. A Recompensa do Servo - Lc 17:7-10
33. O Juiz Iníquo - Lc 18:1-8
34. O Fariseu e o Publicano - Lc 18:9-14
35. As Dez Minas - Lc 19:11-27

As parábolas de Jesus prendiam a atenção por falarem de aspectos comuns do cotidiano: comércio, agricultura, pecuária, religião, casa, etc..


Alguns princípios básicos para a interpretação das parábolas:


Atentar para o significado natural da história;
Identificar o problema, a pergunta ou a situação que originou a parábola;
Identificar a principal verdade ilustrada pela parábola;
Confirmar o tema principal da parábola por meio de um ensinamento bíblico explícito;
Reparar na reação implícita ou explícita dos ouvintes.

SIMBOLOGIA BÍBLICA

Um símbolo é um objeto (real ou imaginário) ou a ação a qual se atribui um significado com vistas a representar em vez de afirmar as qualidades de outro elemento.

Alguns princípios para a interpretação de símbolos:

Prestar bastante atenção nos três fatores da interpretação dos símbolos: o objeto (que é símbolo); o referente (elemento simbolizado) e o significado (semelhança entre o símbolo e o referente).
Ex.: Em João 1:29, o cordeiro (objeto) retrata Cristo (referente), e o significado (semelhança) é que Cristo serviu de sacrifício como muitos cordeiros também serviram.

Lembrar-se de que os símbolos estão fundamentados na realidade;

Descobrir que significado ou semelhança, se existente, o texto atribui de forma explícita ao referente;

Se o versículo não indicar o significado ou o elemento de semelhança do símbolo, consultar outras passagens, analisar a natureza do símbolo e verificar que característica principal este e o referente têm em comum;

Tomar o cuidado de não atribuir ao referente a característica errada do símbolo.
Ex.: No caso do Leão, por exemplo, ele é feroz (1 Pe 5:8) e forte (Ap 5:5).

Procurar o elemento principal de semelhança;


Entender que um elemento principal pode ser representado por vários objetos. Cristo, por exemplo, pode ser representado por um cordeiro, um leão, um ramo, uma raiz, etc..;

Na Literatura profética, não presumir que pelo fato de uma profecia conter alguns símbolos, tudo o mais na profecia tenha caráter simbólico;

Ainda na literatura profética, não transformar em símbolos as descrições de fatos futuros que sejam prováveis ou plausíveis;

CASOS DE SÍMBOLOS BÍBLICOS

Até mesmo as ordenanças da igreja (o batismo e a ceia do Senhor) são atos simbólicos. O batismo nas águas simboliza a identificação do crente com o sepultamento, a morte e a ressurreição de Cristo. Quando o cristão toma os elementos da ceia do Senhor, está, simbolicamente, proclamando a morte do Senhor: o pão representa o corpo de Jesus, que foi “quebrado” na crucificação, e o cálice representa seu sangue, que foi derramado na cruz para a remissão dos pecados.

NÚMEROS SIMBÓLICOS

Parece que certos números transmitem determinados conceitos pelo fato de estarem frequentemente associados a tais ideias. Em geral, o número SETE é associado à perfeição (Gn 2:2,3; Ap 1:12; 4:5; 5:1; 8:1; 15:1; 16:1). O número QUARENTA, por sua vez, costuma ser relacionado à provação (At 7:29,30; Nm 32:13; Lc 4:2).
O leitor da Bíblia precisa ter o cuidado de não entrar na onda da Numerologia. O fato de determinados números estarem associados a determinadas situações não quer dizer que eles sejam capazes de mudar o fluxo da vida de alguém. Num país com tendências místicas como o nosso, é bom ter bastante cuidado com esse tipo de estudo.


NOMES SIMBÓLICOS

Os nomes de certas pessoas e de certos locais das Escrituras revestem-se de significado simbólico, o que não significa que o estudioso da Bíblia deva procurar significado simbólico em nomes, a menos que ela o indique (Gn 3:20; 17:5,15).
Às vezes, as mães davam nomes aos filhos que retratavam as circunstâncias do nascimento ou as características que acreditavam que estes adquiririam (Gn 29:31-35; 30:1-24; Ex 2:10; 1 Sm 1:20; Dn 1:6,7; Jo 1:42; Mt 16:18; Gn 16:13,14; 28:17,19).

CORES SIMBÓLICAS

Às vezes, determinadas cores adquiriam significado simbólico, todavia é preciso tomar cuidado para não extrapolar o que as Escrituras dizem claramente. A púrpura era uma cor usada em tecidos que, aparentemente, simbolizava a realeza ((Jz 8:26; Es 1:6; 8:15; Ct 3:10; Dn 5:7,16,29; Mc 15:17,20) ou a riqueza (Pv 31:22; Lc 16:19; Ap 17:4; 18:16).
O branco está, geralmente, associado à pureza (Is 1:18; Dn 7:9; Mt 17:2; At 1:10; Ap 1:14).
Essa simbologia presente em algumas cores não nos dá o direito, biblicamente, se sairmos atribuindo significados às mais diversas cores, ainda que citadas na Bíblia. É preciso estar muito atento ao contexto e limitar-se à simbologia registrada, sem criarmos uma simbologia individual.


BREVE HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA


O estudo da história da interpretação bíblica pode ajudar-nos a enxergar os erros que outros cometeram no passado e suas consequências, alertando-nos, assim, para evitarmos que se repitam. A história mostra que a utilização de princípios errados prejudicou o trabalho exegético de grandes homens, alguns dos quais foram pessoas extraordinárias. Este fato deve servir de alerta para nós contra a interpretação descuidada. Assim, temos menos desculpas pelo fato de podermos aprender com as lições do passado.

ESDRAS E OS ESCRIBAS

Quando os judeus retornaram do exílio na Babilônia, tudo indica que falavam aramaico e não hebraico. Consequentemente, quando Esdras, o escriba (Ne 8:1,4,13; 12:36), leu a lei (Ne 8:3), os levitas (8:7-9) tiveram que traduzir do hebraico para o aramaico. Certamente é este o sentido de “claramente”, no verso 8.
Desde Esdras até Cristo, os escribas não só ensinavam as Escrituras, mas também a copiavam. Tinham grande reverência em relação aos textos do Antigo Testamento, mas essa veneração logo caiu no exagero.
O rabino Akiba (50? – 132 d.C.), líder de uma escola para rabinos em Jaffa, na Palestina, afirma que “toda repetição, figura, paralelismo, sinonímia, palavra, letra, partícula, pleonasmo e, ainda mais, a própria forma de uma letra possuíam um significado oculto.”

HILLEL e SHAMMAI

O rabino Hillel (70? a.C. – 10 d.C) foi um líder destacado entre os judeus da Palestina. Nascido na Babilônia, fundou uma escola em Jerusalém que levou o seu nome. Era conhecido por sua humildade e seu amor.
Dividiu em seis tópicos as diversas regras que se desenvolveram entre os judeus a cerca dos 613 mandamentos da lei mosaica. Estabeleceu também sete regras para a interpretação do Antigo Testamento.
Shammai, contemporâneo de Hillel, diferia dele tanto no que se refere à personalidade quanto à hermenêutica. Indivíduo de temperamento violento, interpretava a lei com rigor. Os ensinamentos de ambos quase sempre se contrapunham. Após a queda de Jerusalém, em 70 d.C., a escola de Hillel ganhou fama, ao passo que a de Shammai foi perdendo importância e influência.

A ALEGORIZAÇÃO JUDAICA

Alegorizar é procurar um sentido oculto ou obscuro que se acha por trás do significado mais evidente do texto, mas que se encontra distante e, na verdade, dissociado. Assim, o sentido literal é uma espécie de código que precisa ser decifrado para revelar o sentido mais importante e oculto. Segundo este método, o literal é superficial, e o alegórico é que apresenta o verdadeiro significado.
A alegorização judaica sofreu influência da alegorização grega. Os judeus de Alexandra, no Egito, foram influenciados pela filosofia grega, e tinham diante de si um grande problema a resolver: como podiam aceitar o Antigo Testamento e também a filosofia grega, especialmente a de Platão? A solução foi a mesma encontrada pelos filósofos gregos: alegorizar o Antigo Testamento.
Os judeus alexandrinos preocupavam-se com os antropomorfismos e as “imoralidades” do Velho Testamento, da mesma forma que os filósofos gregos ficavam constrangidos com esses elementos em Homero e Hesíodo, e viam a questão da alegorização como uma justificativa, uma maneira de defender o Antigo Testamento perante os gregos.
A Septuaginta procurou remover deliberadamente os antropomorfismos de Deus. Por exemplo: ela traduz “o Senhor é bom de guerra” (Ex 15:3), em hebraico, por “o Senhor esmaga as guerras”; “a forma do Senhor” (Nm 12:8) por “a glória do Senhor”; “então se arrependeu o Senhor do mal...” por “então o Senhor se compadeceu.”

Filo (20 a.C. – 54 d.C.), o mais conhecido alegorista judeu-alexandrino, ensinava que Sara e Hagar representam a virtude e a cultura; Jacó e Esaú, a prudência e a insensatez; que o episódio em que Jacó se deitou e apoiou a cabeça numa pedra simboliza a auto-disciplina da alma.
“Se o texto bíblico diz que Adão ‘se escondeu de Deus’ essa expressão é uma desonra a Deus, que vê todas as coisas – portanto, só pode tratar-se de alegoria. Quando lemos que Jacó, dispondo de tantos servos, enviou José para procurar os irmãos, que Caim tinha esposa ou construiu uma cidade, que Israel era uma ‘herança de Deus’ e que Adão foi chamado de ‘o pai’ de Jacó, em vez de avô, estamos diante de ‘contradições’, e, consequentemente, essas passagens precisam ser alegorizadas.”
Esse mesmo Filo não chegou a descartar totalmente o sentido literal, afirmando que o mesmo correspondia ao nível mais imaturo do entendimento, referente ao corpo, enquanto que o sentido alegórico era para o maduro, referente a alma.

OS PAIS DA IGREJA PRIMITIVA

Pouco se sabe sobre a hermenêutica dos primeiros pais da igreja, aqueles que viveram no primeiro século d.C.. Sabe-se, todavia, que em seus escritos proliferavam as citações do Antigo Testamento e que entendiam que este previa a manifestação de Cristo.
A Epístola de Barnabé (apócrifo) faz inúmeras citações do Antigo Testamento, utilizando alegorias, como por exemplo no caso dos 318 servos de Abraão (Gn 14:14). O autor afirmou que existem três letras gregas que representam o número 318 e que cada uma tem um significado. A letra grega correspondente a t equivale a 300 e representa a cruz; as letras correspondentes a i, e equivalem a 10 e 8, respectivamente, e são as primeiras duas letras de Iesous (Jesus em grego). Portanto, os 318 servos representam Jesus na cruz.
Barnabé enfatiza em sua epístola: “Deus sabe que nunca ensinei a ninguém nada mais verdadeiro, e acredito que sois digno disso.” Ele ensina também que a expressão “Ele é como a árvore plantada junto a corrente de águas” (Sl 1:3) fala do batismo e da cruz. O fato de a folhagem não murchar indica que o justo haverá de trazer provisões e esperança para muitas pessoas.

JUSTINO MÁRTIR (100-164 d.C.) afirmava que Lia representa os judeus, Raquel simboliza a igreja e Jacó é Cristo, que serve a ambos. A atitude de Arão e Hur de sustentarem os braços de Moisés, simboliza a cruz. Afirmava que o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos, mas essa pertinência só era percebida por meio da alegorização. Esta afirmação contestava o ensino de Marcião, escritor da época, que não aceitava o Velho Testamento, o qual, afirmava, não tinha a menor aplicabilidade ao cristão moderno, nem mesmo através desse processo de interpretação.

IRENEU (130-202) ressaltou que a Bíblia deve ser entendida de acordo com seu sentido óbvio, verdadeiro, e que o Velho Testamento é aceitável para os cristãos, pois está repleto de tipos.
Em certos casos, porém, a tipologia desenvolvida por ele chegava às raias da alegoria. Afirmou, por exemplo, que os três espias (e não dois), que Raabe escondeu, representavam o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
De acordo com o seu entendimento, o único método correto de interpretação é o da fé, preservado nas igrejas mediante a sucessão apostólica. Ele costumava apelar para a tradição, dizendo que a exposição autêntica das escrituras precisava ser aprendida com os anciãos, que podiam considerar-se participantes da sucessão apostólica.

TERTULIANO DE CATARGO (160-220) afirmou que as Escrituras são propriedades da igreja. A solução para a heresia é “a regra de fé”, ou seja, os ensinamentos ortodoxos sustentados pela igreja. Acreditava que as passagens bíblicas tinham que ser vistas de acordo com o sentido original, interpretadas segundo o contexto que foram enunciadas ou escritas. Contudo, como ocorreu com Ireneu, sua tipologia beirou a alegorização. O quadro de Gênesis 1:2, do Espírito pairando sobre as águas, simboliza o batismo; e Cristo estava ensinando por meio de símbolos quando disse a Pedro que embainhasse a espada. Os doze apóstolos são simbolizados pelas 12 fontes de água de Elim, pelas 12 pedras preciosas que o sacerdote levava no peitoral de sua roupa e pelas 12 pedras tiradas do rio Jordão.

O ensino alegórico desses três pais da igreja (Justino, Ireneu e Tertuliano) assumiu um caráter apologético, o mesmo que aconteceu com os filósofos gregos e com os judeus alexandrinos. Achavam que os problemas do Antigo Testamento seriam prontamente resolvidos pela alegorização. Assim, a tipologia tornou-se também em alegorização. Os três defenderam a autoridade da igreja para combater as heresias. Dessa forma, sem saber, esses apologistas acabaram abrindo caminho para que a tradição da igreja ganhasse autoridade, e essa perspectiva predominou durante séculos ao longo da Idade Média.

OS PAIS ALEXANDRINOS E ANTIOQUINOS

CLEMENTE DE ALEXANDRIA (150-215) acreditava que as Escrituras ocultavam seu verdadeiro significado a fim de que nos tornássemos inquiridores, e também porque não é bom que todos a entendam. Afirmava que qualquer passagem bíblica pode ter cinco significados: histórico(as histórias bíblicas); doutrinário (com ensinamentos mais profundos e teológicos); proféticos (inclui tipos e profecias); filosófico (alegorias com personagens históricas, como Sara, que simbolizava a verdadeira sabedoria, e Hagar, que representava a filosofia pagã); místico (verdades morais e espirituais).
Em sua excessiva alegorização, Clemente ensinava que as proibições mosaicas de comer porco, falcão, águia e corvo (Lv 11:7, 13-19) representavam, respectivamente, a ânsia impura pela comida, a injustiça, o roubo e a cobiça. No episódio em que cinco mil pessoas foram alimentadas (Lc 9:10-17), os dois peixes simbolizam a filosofia grega.

ORÍGENES (185-254), sucessor de Clemente, acreditava ser as Escrituras uma vasta alegoria na qual cada detalhe é simbólico. Acreditava que assim como o homem é constituído de três partes (corpo, alma e espírito), da mesma forma as Escrituras possuem três sentidos: o corpo é o sentido literal; a alma, o sentido moral; e o espírito, o sentido alegórico ou místico. Na prática, menosprezou o sentido literal, raramente se referiu ao sentido moral, empregando, constantemente, a alegoria, uma vez que somente ela produzia o verdadeiro conhecimento.

Ele ressaltou que como a Bíblia está repleta de enigmas, parábolas, afirmações de sentido obscuro e problemas morais, o sentido só pode ser encontrado num nível mais profundo. Esses problemas incluem a existência de dias em Gênesis 1, antes da criação do Sol e da Lua; o fato de Deus caminhar pelo jardim do Éden, além de outros antopomorfismos como a face de Deus, e problemas morais, como o incesto de Ló, a embriaguez de Noé, a poligamia de Jacó e a sedução de Judá por Tamar, entre outros. Valendo-se de suas alegorias, Orígenes rebateu prontamente estas e outras questões que os inimigos do Evangelho usavam para atacar o Cristianismo.
Mediante a alegorização,. Orígenes ensinava que a arca de Noé simbolizava a igreja e que Noé simbolizava Cristo. O episódio em que Rebeca tirou água do poço para os servos de Abraão significa que devemos recorrer, diariamente, às Escrituras para ter um encontro com Cristo. Na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a jumenta representava o Antigo Testamento; o jumentinho, o Novo Testamento; os dois apóstolos, os aspectos moral e místico das Escrituras.

Percebendo o crescente abandono do sentido literal das Escrituras por parte dos pais alexandrinos, OS PAIS ANTIOQUINOS destacaram a importância da interpretação literal, histórica, incentivando, inclusive, o estudo das línguas bíblicas originais (hebraico e grego) e redigindo comentários sobre as Escrituras. O elo entre os dois testamentos, segundo eles, era a tipologia e as profecias, não a alegorização. A interpretação literal incluía a linguagem figurada.
Dentre os pais antioquinos que defendem o sentido literal das Escrituras, podemos destacar: Doroteu, Luciano (240-312), Diodoro (393), Teodoro de Mopsuéstia, João Crisóstomo (354-407) e Teodoreto (386-458).


OS PAIS DA IGREJA DOS SÉCULOS V e VI

JERÔNIMO (347-419) começou adotando a alegorização de Orígenes. Posteriormente, porém, assumiu um estilo mais literal, depois de ter sido influenciado pela igreja antioquina e pelos mestres judeus. Acreditava que o sentido mais profundo das Escrituras poderia ser desvendado a partir do sentido literal.

VICENTE faleceu antes de 450. Adotou a linha de Tertuliano, que defendia a autoridade e a tradição da igreja, conferindo-lhe uma clareza ainda maior. Afirma que as Escrituras conheceram sua exposição definitiva na igreja primitiva. “A linha de interpretação dos profetas e apóstolos precisa seguir a norma dos sentidos eclesiásticos e católicos.” A norma a que se refere, incluía as decisões do conselho eclesiástico e as interpretações dos pais. Sua autoridade hermenêutica era: “O que sempre foi crido por todos, em toda a parte.”

AGOSTINHO (354-430), em termos de originalidade e gênio, foi, de longe, o maior homem de sua época. Estabeleceu diversas regras para a exposição das Escrituras, algumas das quais, em uso até hoje:

1. O intérprete deve possuir fé cristã autêntica;

2. Deve ter-se em alta conta o significado literal e histórico das Escrituras;

3. O texto bíblico tem mais de um significado, sendo, portanto, adequado o método alegórico;

4. Há significado nos números bíblicos;

5. O Antigo Testamento é um documento cristão porque Cristo está retratado nele do princípio ao fim;

6. Compete ao expositor entender o que o autor quis dizer, e não introduzir no texto o significado que ele, expositor, quer lhe dar;

7. O intérprete deve consultar o verdadeiro credo ortodoxo;

8. Um versículo deve ser estudado em seu verdadeiro contexto, e não isolado dos versículos que o cercam;

9. Se o significado de um texto é obscuro, nada na passagem pode constituir-se matéria de fé ortodoxa;

10. O Espírito Santo não toma o lugar do aprendizado necessário para entender as Escrituras. O intérprete deve conhecer hebraico, grego, geografia e outros assuntos;

11. A passagem obscura deve dar preferência à passagem clara;

12. O expositor deve levar em consideração que a revelação é progressiva.

Na prática, Agostinho renunciou a maioria de seus princípios, inclinando-se para uma alegorização excessiva, o que transformou seus comentários exegéticos em escritos de pouca importância. Ele justificou suas interpretações alegóricas com o texto de 2 Coríntios 3:6: “... porque a letra mata, mas o Espírito vivifica”, querendo, com isso, dizer que uma interpretação literal da Bíblia mata, mas uma alegórica ou espiritual vivifica. Assim, sua influência para o desenvolvimento de uma exegese científica foi mista: teoricamente, sistematizou muitos dos princípios de uma exegese sadia; na prática, deixou de aplicar esses princípios em seus estudos bíblicos.
O sistema de alegorização de Agostinho ensinava que os quatro rios de Gênesis 2:10-14 eram quatro virtudes fundamentais e que, no episódio da queda, as folhas de figueira representam a hipocrisia, e o cobrir a carne, a mortalidade; a embriaguez de Noé (Gn 9:20-23) simbolizava o sofrimento e a morte de Cristo; os dentes da Sulamita, em Cantares 4:2, simbolizavam a igreja “arrancando os homens da heresia.”
Agostinho acreditava que as Escrituras tinham um sentido quádruplo: histórico, etiológico, analógico e alegórico.


JOÃO CASSIANO (360-435) pregava que a Bíblia tinha um sentido quádruplo: histórico, alegórico, tropológico (moral) e anagógico (oculto):
“A letra ensina os acontecimentos
(o que Deus e nossos ancestrais fizeram),
O que você crê é ensinado pela alegoria,
O ensinamento moral é o que você faz,
Seu destino é ensinado pela anagogia.”

Segundo esse método, Jerusalém pode ter quatro significados: historicamente, a cidade dos judeus; alegoricamente, a igreja de Cristo; topologicamente (moralmente), a alma humana, e anagogicamente, a cidade celestial.


EXEGESE MEDIEVAL (600 – 1500)

Pouca erudição teve origem na Idade Média. A maior parte dos estudantes da Bíblia devota-se a estudar e compilar as obras dos pais primitivos. A interpretação foi amarrada pela tradição, e o que se destacava era o método alegórico.
O sentido quádruplo engendrado por Agostinho era a norma para a interpretação bíblica.
Durante esse período, aceitou-se, geralmente, o princípio de que qualquer interpretação de um texto bíblico devia adaptar-se à tradição e à doutrina da igreja. A fonte da teologia dogmática não era só a Bíblia, mas a Bíblia conforme a tradição da igreja a interpretava.

TOMÁS DE AQUINO (1225-1274) foi o teólogo mais famoso da Igreja Católica Romana da Idade Média. Acreditava que o sentido literal das Escrituras era fundamental, mas que outros sentidos apoiavam-se sobre este. Como a Bíblia tem um autor divino, bem como autores humanos, ela tem um lado espiritual. “O sentido literal é o que o autor pretende transmitir, mas como o autor é Deus, podemos esperar encontrar na Bíblia um manancial de significados...

O autor das Escrituras é Deus, que tem o poder de expressar o que quer dizer e não apenas por meio de palavras (como também o homem pode fazer), mas também por meio de elementos... Esse significado, que confere sentido aos próprios elementos representados pelas palavras, é chamado de sentido espiritual, que por sua vez se apóia no literal e o pressupõe.” Aquino também considerava os sentidos histórico, alegórico, tropológico e anagógico.

NICOLAU DE LIRA (1279 – 1340) foi uma figura de relevo na Idade Média por ter sido o elo entre as trevas daquela era e a luz da Reforma. Em seus comentários sobre o Antigo Testamento, rejeitou a Vulgata de Jerônimo, retornando para o hebraico, todavia não conhecia o grego. Lutero sofreu forte influência de Nicolau.
Apesar de aceitar o sentido quádruplo das Escrituras, tão comum na Idade Média, pouca importância lhe dava, enfatizando o aspecto literal.

JOÃO WYCLIFFE (1330 – 1384) foi um extraordinário reformador e teólogo que acentuava fortemente a legitimidade das Escrituras como fonte de doutrinas de vida cristã, contestando, assim, a posição tradicional da Igreja Católica. Foi o primeiro tradutor inglês da Bíblia, além de peça fundamental para a Reforma.


EXEGESE DA REFORMA (Século XVI)

Nos séculos XIV e XV, predominava profunda ignorância quanto ao conteúdo das Escrituras: alguns doutores em Teologia nunca haviam lido a Bíblia toda. A Renascença chamou a atenção para a necessidade de se conhecer as línguas originais a fim de entender-se a Bíblia. Desidério Erasmo facilitou este estudo, publicando, em 1516, a primeira edição crítica do Novo Testamento em Grego, e Reuchlin com sua tradução de uma gramática do léxico hebraico.
O sentido quádruplo das Escrituras foi, aos poucos, deixado de lado e substituído pelo princípio de que o texto sagrado tem um único sentido.
Durante a Reforma, a Bíblia passou a ser a única fonte legítima a nortear a fé e a prática. Os reformadores baseavam-se no método literal da escola antioquina e dos vitorinos. A Reforma foi uma época de distúrbios sociais e eclesiásticos, porém foi essencialmente uma reforma hermenêutica, uma reforma da maneira de se ver a Bíblia.

LUTERO (1483 – 1546) acreditava que a fé e a iluminação do Espírito eram indispensáveis ao intérprete da Bíblia. Aliás, enfatizava o reformador que a Bíblia devia ser vista com olhos inteiramente distintos daqueles com os quais vemos outras produções literárias.
Lutero defendia que a igreja não devia determinar o que as Escrituras ensinam; muito pelo contrário, as Escrituras é que deviam determinar os ensinamentos da igreja. Rejeitou o método alegórico de interpretação, chamando-o, inclusive, de “sujeira, escória e um monte de trapos obsoletos.”
Segundo Lutero, uma interpretação adequada da Bíblia deve partir de uma compreensão literal do texto, considerando-se as condições históricas, a gramática e o contexto. Acreditava que a Bíblia é um livro claro, contrariamente ao dogma católico-romano de que as Escrituras são tão obscuras que somente a igreja pode revelar seu verdadeiro significado.
Contrário à alegorização, Lutero defendeu que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento apontam para Cristo, criando, inclusive, um princípio cristológico, chegando a designar alguns Salmos como sendo messiânicos. Através desse princípio, demonstrou a unidade das Escrituras sem apelação para a interpretação mística do texto do Antigo Testamento.
Um dos grandes princípios hermenêuticos de Lutero dizia que se deve fazer cuidadosa distinção entre a Lei e o Evangelho. Para ele, a Lei refere-se a Deus em sua ira, seu juízo e seu ódio ao pecado; já o Evangelho refere-se a Deus em sua graça, seu amor e sua salvação. O repúdio à Lei estava errado, porque conduz à ilegalidade. Fundir a lei e o evangelho também estava errado por conduzir à heresia de acrescentar obras à fé. Lutero acreditava, portanto, que o reconhecimento e manutenção cuidadosa da distinção lei-evangelho eram decisivos ao entendimento adequado da Bíblia.

JOÃO CALVINO (1509 – 1564) foi considerado um dos maiores intérpretes da Bíblia e o maior exegeta da Reforma. Assim como Lutero, rejeitava as interpretações alegóricas, declarando que eram jogos fúteis e que Orígenes e muitos outros eram culpados de desfigurar as Escrituras em todos os sentidos possíveis, destituindo-as do sentido original.
Calvino ressalta a natureza cristológica dos textos bíblicos, os métodos gramático e histórico e a exegese (deixar o texto falar por si, e não ler o que ele não diz), o ministério esclarecedor do Espírito Santo e um tratamento equilibrado da tipologia. Não concorda com Lutero quanto ao número de Salmos messiânicos e quanto ao fato de Cristo ser encontrado em toda a parte das Escrituras.
Da mesma forma que Lutero, frisava que “o texto bíblico interpreta a si mesmo”. Assim sendo, deu extrema importância à exegese gramatical e à necessidade de examinar o contexto de cada passagem.

EXEGESE PÓS-REFORMA (1500 – 1800)

CONFESSIONALISMO

O Concílio de Trento reuniu-se em várias ocasiões entre 1545 e 1563, elaborando uma lista de decretos que expunham os dogmas da Igreja Católica Romana e criticavam o Protestantismo. Os protestantes reagiram com o desenvolvimento de credos que definiram suas posições. A certa altura, quase todas as cidades importantes tinham seu credo predileto, predominado amargas controvérsias teológicas. Os métodos hermenêuticos durante este período eram deficientes, uma vez que a exegese tornou-se uma criada da dogmática, e muitas vezes degenerou-se em mera escolha de texto para comprovação.
Descrevendo os teólogos daquela época, diz Farrar: “eles liam a Bíblia à luz do fulgor antinatural do ódio teológico.”


PIETISMO

Surgiu como uma reação à exegese dogmática e ao confessionalismo. Philipp Jakob Spener (1635-1705) é considerado o criador do movimento pietista. Num folheto intitulado “Anseios Piedosos”, pedia o fim da controvérsia inútil, o retorno ao interesse cristão mútuo e às boas obras, melhor conhecimento da Bíblia pelos cristãos e melhor preparo espiritual para os ministros.
O Pietismo fez significativas contribuições para o estudo das Escrituras, todavia não ficou imune às críticas. Nos seus mais sublimes momentos, os pietistas uniram um profundo desejo de entender a Palavra de Deus e apropriar-se dela para sua vida, com uma excelente apreciação da interpretação histórico-gramatical, passando a depender de uma “luz interior” ou de “uma unção do Santo”. Essas manifestações baseadas em impressões subjetivas e reflexões piedosas, muitas vezes resultaram em interpretações contraditórias e que pouca relação tinham com o significado do autor.

RACIONALISMO

Esse movimento sustentava que o intelecto humano sabe discernir o que é verdadeiro e o que é falso. Assim sendo, a Bíblia está certa se corresponde à razão humana, e o que não corresponde pode ser ignorado ou rejeitado.

THOMAS HOBBES (1588 – 1679) foi um filósofo inglês que pregava o racionalismo com tendências políticas, interessando-se pela Bíblia como um livro que continha regras e princípios para a república inglesa.

O judeu BARUCH SPINOZA (1632 – 1677) foi um filósofo holandês que ensinava que a razão humana está desvinculada da teologia. A teologia (revelação) e a filosofia (razão) pertencem a campos distintos. Assim sendo, ele contestava os milagres bíblicos. Determinou várias regras de interpretação das Escrituras, incluindo a necessidade de conhecer o hebraico e o grego, além do contexto de cada livro bíblico. A razão é o critério absoluto para julgar qualquer interpretação de uma passagem das Escrituras. “A regra da exegese bíblica só pode ser a luz da razão, para todos.”

HERMENÊUTICA MODERNA (1800 – atual)

LIBERALISMO

O Racionalismo filosófico lançou a base do Liberalismo teológico. Nos séculos anteriores, a revelação havia determinado o que a razão devia pensar. Já no final do século XIX, a razão determinava que partes da revelação (se houvesse alguma) deviam ser aceitas como verdadeiras. Nos séculos anteriores dava-se ênfase à autoridade divina, agora, porém, o foco era a autoridade humana. Alguns autores diziam que várias das Escrituras possuíam diversos graus de inspiração, e podia ser que os graus inferiores (como detalhes históricos) contivessem erros. Outros escritores foram além, negando totalmente o caráter sobrenatural da inspiração. Muitos já nem mencionavam a inspiração como o processo pelo qual Deus guiou os autores humanos a um produto escriturístico que fosse a Sua verdade. Pelo contrário, a inspiração referia-se a capacidade da Bíblia (produzida humanamente) de inspirar experiência religiosa.
Também aplicou-se à Bíblia um naturalismo consumado. Os racionalistas alegavam que tudo o que não estivesse conforme à “mentalidade instruída” devia ser rejeitado, o que incluía doutrinas como a depravação humana, o inferno, o nascimento virginal e, com frequência, até a expiação vicária de Cristo.
Sofrendo a influência do pensamento de Darwin e de Hegel, a Bíblia chegou a ser vista como um registro de desenvolvimento evolucionista da consciência religiosa de Israel (posteriormente, da igreja), e não como uma revelação do próprio Deus ao homem.

NEO-ORTODOXIA

A neo-ortodoxia é um fenômeno do século XX. Ocupa, em alguns aspectos, uma posição intermediária entre os pontos de vista liberal e o ortodoxo. Rompe com a opinião liberal de que a Bíblia é tão somente um produto do aprofundamento da consciência religiosa do homem, mas detém-se antes de chegar à perspectiva ortodoxa da revelação.
Os neo-ortodoxos creem, geralmente, que a Bíblia é o testemunho do homem à revelação que Deus faz a si próprio. Sustentam que Deus se manifesta em palavras, mas apenas por sua presença. Quando alguém lê um texto bíblico e reage com fé à presença divina, ocorre a revelação. A revelação, aliás, não é considerada como algo ocorrido num ponto histórico, o qual agora nos é transmitido nos textos bíblicos, mas uma experiência presente que deve fazer-se acompanhar de uma reação existencial pessoal.
A infalibilidade ou inerrância não tem lugar no vocabulário neo-ortodoxo. A Bíblia é vista como um compêndio de sistemas teológicos, às vezes, conflitantes, acompanhados por diversos erros. Os chamados “mitos” bíblicos (criação, queda, ressurreição) pretendem apresentar verdades teológicas na forma de incidentes históricos.
Muitas das teorias neo-ortodoxas são defendidas também pela chamada “Nova Hermenêutica”, corrente ideológica europeia criada a partir da Segunda Guerra Mundial.
Para nós, evangélicos, no entanto, a Bíblia sempre foi e continuará sendo a Palavra de Deus e não uma coletânea de sistemas teológicos ou o relato de uma série de mitos.

A HERMENÊUTICA NO CRISTIANISMO ORTODOXO

Durante os últimos duzentos anos, continuou havendo intérpretes que acreditavam ser as Escrituras a revelação que Deus faz de si mesmo (de suas palavras e ações) à humanidade. A tarefa de intérprete, segundo esses teólogos, é procurar compreender mais plenamente o significado intencional do autor primitivo. Assim, foram realizados estudos da história, da cultura, da língua e da compreensão teológica dos primeiros leitores, a fim de que se entenda o que a revelação bíblica significa para eles.

CONCLUSÃO

Esta breve retrospectiva da história da hermenêutica mostra a importância de os evangélicos continuarem a enfatizar a interpretação histórica, gramatical e literal da Bíblia. Somente através deste método, os cristãos poderão ser capacitados a entenderem a Palavra de Deus corretamente, como fundamento de uma vida piedosa, como regra de fé e prática.


DEZ PRINCÍPIOS BÁSICOS DE EXEGESE


1. Denomina-se princípio da unidade escriturística. Sob a inspiração divina a Bíblia ensina apenas uma teologia. Não pode haver diferença doutrinária entre um livro e outro da Bíblia;

2. Aprender a ler cuidadosamente o texto .Ter atenção com as virgulas, pontos finais e parágrafos, pontos de exclamação e interrogação, dois pontos e ponto e virgula.

3. A Bíblia interpreta a própria Bíblia. Este princípio vem da Reforma Protestante. O sentido mais claro e mais fácil de uma passagem explica outra com o sentido mais difícil e mais obscuro.

4. Jamais esquecer a Regra Áurea da Interpretação, chamada por Orígenes de Analogia da Fé. O texto deve ser interpretado através do conjunto das Escrituras e nunca através de textos isolados.

5. Sempre ter em vista o contexto. Ler o que está antes e o que vem depois para concluir aquilo que o autor tinha em mente.

6. Primeiro procura-se o sentido literal, a menos que as evidências demonstrem que este é figurativo.

7. Ler o texto em todas as traduções mais verossímeis.

8. O trabalho de interpretação é científico e espiritual, por isso deve ser feito com isenção de ânimo e tentando-se desprender de qualquer preconceito .

9. Fazer algumas perguntas relacionadas com a passagem para chegar a conclusões circunstanciais. Por exemplo: a) Quem escreveu? b) Quando e onde foi escrito? c) Qual o tema ou a razão principal do escritor? d) A quem se dirigiu o escritor?

10. Feita a exegese, se o resultado obtido contrariar os princípios fundamentais da Bíblia, ele deve ser colocado de lado.


MÉTODOS DE ESTUDO DA BÍBLIA

Método é a maneira ordenada de fazer alguma coisa. É um procedimento seguido passo a passo, cujo objetivo é levar o estudante a uma conclusão.

1. Método Analítico – Analisar algo é estudar em seus pormenores, detalhe por detalhe, tendo o cuidado de anotar os aspectos por menores que eles sejam e por mais insignificantes que eles pareçam ser. É o método microscópico.

2. Método Sintético – Aborda cada livro como uma unidade inteira e procura entender o seu sentido como um todo. Procura analisar o livro de forma global. É o método telescópico.

3. Método Temático – É o método de estudo de um tema específico.

4. Método Biográfico – Aborda narrativas e exposições biográficas de personagens bíblicos .

5. Método Histórico – É o método de estudo com sentido histórico de livros ou passagens bíblicas. Consideram-se os fatos contemporâneos, lugares, tendências, movimentos e outras questões.

6. Método Teológico – É o método de estudo onde se sistematiza as doutrinas bíblicas.

7. Método Devocional – É o método de estudo da Bíblia com fins de aplicar várias passagens às necessidades particulares do crente. “Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (II Pe.1.20,21).


BREVE REFLEXÃO

No livro “Hermenêutica - Princípios de Interpretação das Sagradas Escrituras”, registram E. Lund e P.C. Nelson, sobre a interpretação bíblica: “... devem ser sacrificadas as preocupações, as opiniões preconcebidas, as ideias veneradas, para empreender o estudo com o espírito de um discípulo dócil, tendo Cristo como Mestre. Deve-se sempre ter em mente que a obscuridade e aparente contradição que possam existir não estão nos ensinos de Jesus, tampouco na sua infalível palavra, mas sim no pouco alcance do discípulo... Portanto, busque no estudo das Escrituras ter tanta paciência quando nas coisas comuns da vida. Além disso, manifeste a nobreza tal qual a que caracterizava os de Beréia, acerca dos quais afirma a Bíblia: ‘os bereanos eram mais nobres que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo.’(At 17:11)”

Acrescentam ainda os autores: “Para o estudo proveitoso das Escrituras é necessário, em primeiro plano, ter a prudência de saber iniciar a leitura pelo mais simples e prosseguir para o mais complexo. É fácil descobrir que o Novo Testamento é mais simples que o Antigo, que os evangelhos são mais simples que as cartas apostólicas. Ainda entre os evangelhos, os três primeiros são mais simples que o quarto... Em continuação ao evangelho de Lucas, pode-se ler o livro de Atos, que é mais fácil de ser compreendido que o evangelho de João... Tenha a cautela de saber passar do simples para o complexo, para tirar proveiro, e não deixá-lo de lado por parecer imcompreensível.”

Podemos resumir tudo isso naquele traço característico que os discípulos de Jesus exprimiam nos momentos em que não compreendiam as palavras do Mestre, ou seja, perguntavam-lhe sobre o significado, pedindo explicação. Então lemos: “Quando, porém, estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo” (Mc 4:34)


MINHAS FONTES

1. A Interpretação Bíblica: Meios de Descobrir as Verdades da Bíblia
Roy B. Zuck
Edições Vida Nova

2. Hermenêutica
Princípios e Processos de Interpretação Bíblica
Henry A. Virkler
Editora Vida

3. Os Perigos da Interpretação Bíblica
D. A. Carson
Vida Nova

4. Hermenêutica
Princípios de Interpretação das Sagradas Escrituras
E. Lund & P.C. Nelson

5. www.hemeneutica.com.br

6. Guia Básico para a Interpretação da Bíblia
Robert H. Stein
CPAD

7. Lendo a Bíblia com O Coração e a Mente
Tremper Longman
Editora Cultura Cristã

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